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Cronômetro certificado: o que o selo COSC garante de verdade

Gustavo Grossi 7 min de leitura
Movimento de relógio sobre bancada de laboratório com aparelho de medição ao lado

O selo certifica o movimento, e não o relógio que você compra. Essa diferença de uma palavra muda tudo o que ele garante.

Existe uma palavra que aparece no mostrador de relógio caro, custa dinheiro de verdade e quase ninguém sabe ler.

Ela também é confundida o tempo todo com outra palavra parecida, que significa uma coisa completamente diferente.

O que a palavra significa

Cronômetro é um certificado de precisão. Não é uma função, não é um tipo de relógio e não tem botão nenhum.

O órgão que certifica na Suíça é o COSC, o controle oficial suíço de cronômetros. Ele recebe movimentos de qualquer marca, testa e aprova ou reprova.

Não confunda com cronógrafo, que é o relógio com botão que mede intervalo. Um cronógrafo pode atrasar meio minuto por dia, e um cronômetro pode não medir intervalo nenhum.

O levantamento da Monochrome sobre cronógrafos explica a outra palavra, e a ficha completa dela está em cronógrafo vale a pena.

Os dois nomes vêm do mesmo grego e é aí que mora a confusão. Um escreve o tempo, o outro mede o tempo.

O teste, critério por critério

Aqui está o que o selo cobra, e é mais duro do que parece.

Segundo a página oficial do COSC, cada movimento passa por um ensaio de 12 a 20 dias, sendo 15 o padrão para mecânico.

O ensaio
Duração 15 dias
Posições 5: 6h, 3h, 9h, mostrador acima e abaixo
Temperaturas 3: 8°C, 23°C e 38°C
Marcha média diária menos 4 a mais 6 segundos
Critérios no total 7

Os outros seis critérios medem consistência, não só a média: variação por temperatura, retomada de marcha, maior diferença entre marchas, diferença entre posição horizontal e vertical, maior variação e variação média.

Ou seja, não basta o relógio andar certo na média. Ele tem que andar parecido em qualquer posição e em qualquer temperatura, dia após dia.

Para dar tamanho ao número: um automático suíço comum não certificado trabalha numa faixa bem mais larga, e um japonês de entrada declara de menos 35 a mais 45 segundos por dia. A régua está em quantos segundos um relógio pode errar.

Quinze dias, cinco posições, três temperaturas. É ensaio, não é cálculo.
Quinze dias, cinco posições, três temperaturas. É ensaio, não é cálculo.

O detalhe que quase ninguém sabe

Esta é a informação mais útil deste post, e ela está escrita na própria fonte.

O COSC certifica o movimento, não o relógio completo. Os movimentos chegam para o ensaio em barras de cinco, sem caixa, sem mostrador e sem ponteiro.

Isso tem uma consequência prática desconfortável: o movimento aprovado ainda precisa ser encaixotado, e o encaixotamento mexe no comportamento dele.

Ponteiro pesado, mostrador mal ajustado ou uma caixa que aperta o movimento podem tirar a peça da faixa depois do selo. O certificado é verdadeiro sobre o que foi testado, e o que foi testado não é exatamente o que chegou no seu pulso.

Isso não quer dizer que o selo é enfeite. Um movimento que passa é objetivamente melhor regulado que um que nem foi enviado.

Quer dizer que ele não é garantia de que o seu relógio anda dentro da faixa hoje. É garantia de que o motor dele saiu de fábrica capaz disso.

O que está mudando

Vale registrar, porque o padrão acabou de ficar mais duro.

O COSC lançou uma certificação superior, a Excellence, que aperta a marcha para menos 2 a mais 4 segundos por dia e acrescenta três coisas que o teste antigo não olhava:

Desgaste simulado, ou seja, o ensaio passa a imitar uso real em vez de só bancada. Resistência magnética até 200 gauss. E verificação da reserva de marcha declarada.

Os dois primeiros itens atacam justamente o que mais tira relógio do prumo no dia a dia. Magnetismo é o vilão silencioso, e o que resolve isso está nas espirais de silício e Nivachron, assunto de Longines vale a pena.

Quanto custa no Brasil

Antes do número, uma coisa que muda como se conta.

A palavra cronômetro é protegida por lei na Suíça. Segundo a definição da Monochrome, nenhum relógio pode ser legalmente chamado de cronômetro sem o certificado do COSC.

Isso quer dizer que a palavra Chronometer impressa num mostrador suíço não é enfeite de marketing. Ela é uma declaração com peso jurídico, e por isso serve para achar as peças certificadas mesmo quando a ficha não cita o ensaio.

Atenção a uma armadilha aqui, porque ela custa referências. O selo é escrito de duas maneiras diferentes e as marcas não seguem um padrão:

No mostrador ou no nome Quem usa mais
Chronometer Certina, Christopher Ward, Mido
COSC Tissot, Frederique Constant, Mido

Procurar só por uma das duas perde quase metade do catálogo. Este post já cometeu esse erro e ele está corrigido aqui.

Levantamos o catálogo inteiro pelas duas palavras. São 40 referências com certificação à venda aqui, de R$ 5.202 a R$ 19.278, com mediana em R$ 11.373.

Marca Refs
Mido 18
Tissot 7
Christopher Ward 6
Certina 5
Frederique Constant 4

A concentração diz alguma coisa: a Mido sozinha tem quase metade das certificadas do catálogo, e o panorama dela está em Mido vale a pena.

Agora repare no piso, porque ele é mais baixo do que quase todo mundo imagina. Cinco mil duzentos e dois reais é onde a certificação começa, num Certina DS Podium Chronometer.

Isso derruba a ideia de que cronômetro é coisa de dez mil para cima. Ele começa na mesma faixa de um automático suíço comum, e a diferença é que alguém pagou o ensaio.

O selo certifica o movimento, e não o relógio que chega em você.
O selo certifica o movimento, e não o relógio que chega em você.

O que o selo não garante

Vale listar, porque é onde a expectativa desanda.

Não garante durabilidade. Precisão e robustez são coisas diferentes. Um cronômetro não aguenta mais pancada que um não certificado.

Não garante água. Nenhum critério do ensaio olha estanqueidade.

Não garante que continue assim. A regulagem se desfaz com o tempo, com choque e com magnetismo. Sem revisão, o selo envelhece junto com o relógio.

Não garante acabamento. O ensaio mede comportamento, não beleza. Movimento feio passa igual.

Não garante calibre exclusivo. Movimento de volume alto passa no ensaio como qualquer outro, e a maior parte dos certificados do catálogo brasileiro roda em cima do mesmo tronco ETA de sempre, assunto de o motor suíço dentro de meio mercado.

E existe o outro lado, honesto: um relógio não certificado pode andar melhor que um certificado. O selo diz que a peça foi medida e passou, não que ela é a melhor da prateleira.

Vale pagar por isso

Vale se você usa o relógio todo dia e acertar hora te irrita. Menos 4 a mais 6 é a diferença entre acertar uma vez por mês e acertar uma vez por semana.

Vale se você quer saber que alguém mediu. Certificação é a única forma de sair do “a marca diz que” e entrar no “foi testado”.

Não vale se você tem vários relógios. Um automático que passa a semana na gaveta vai estar parado, e precisão nenhuma resolve isso.

Não vale se o objetivo é precisão de verdade. Qualquer quartzo comum erra menos que qualquer cronômetro mecânico, por uma fração do preço.

Essa última é a ironia da categoria e ela merece ser dita com todas as letras.

Perguntas frequentes

O que quer dizer cronômetro num relógio?

Que o movimento foi testado por um órgão independente e aprovado dentro de uma faixa de precisão. Na Suíça o órgão é o COSC.

Qual a tolerância de um cronômetro COSC?

Menos 4 a mais 6 segundos por dia na marcha média, medida ao longo de 15 dias em cinco posições e três temperaturas.

Cronômetro é a mesma coisa que cronógrafo?

Não. Cronômetro é certificado de precisão. Cronógrafo é a função de medir intervalo com botões. Existem relógios que são os dois.

O COSC testa o relógio inteiro?

Não. Ele testa o movimento, que chega sem caixa e sem mostrador. O encaixotamento depois pode mudar o comportamento da peça.

Quanto custa um cronômetro certificado no Brasil?

A faixa começa em R$ 5.202 e vai até R$ 19.278, nas 40 referências à venda aqui. A Mido concentra 14 delas.

A palavra cronômetro pode ser usada por qualquer marca?

Não. Na Suíça ela é protegida por lei: nenhum relógio pode ser chamado de cronômetro sem o certificado do COSC.

Um relógio sem selo anda pior?

Não necessariamente. Muito relógio não certificado anda dentro da faixa. O que falta é alguém ter medido e atestado.

O que fica

O selo de cronômetro é uma das poucas coisas na relojoaria que é medida em vez de afirmada, e só por isso já vale existir.

Ele garante que o motor do seu relógio passou por 15 dias de ensaio em cinco posições e três temperaturas, e saiu de lá dentro de uma faixa apertada.

O que ele não garante é que a peça que chegou em você continue ali, porque quem foi testado foi o movimento nu, antes da caixa.

E vale guardar a ironia inteira: o relógio de quartzo mais barato deste blog erra menos que qualquer cronômetro mecânico.

Quem compra o selo não está comprando precisão absoluta. Está comprando a melhor precisão possível dentro de uma escolha que já foi feita por outro motivo.

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