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Mostrador azul custa 73% mais caro que preto? Só se você ler errado

Gustavo Grossi 7 min de leitura
Quatro relógios de aço com mostradores preto, azul, verde e prata alinhados sobre linho claro

Existe uma conta que parece provar que mostrador azul custa caro. Ela está certa nos números e errada na conclusão, e a diferença entre as duas coisas vale dinheiro.

Perguntamos uma coisa simples aos dados: a cor do mostrador muda o preço?

Levantamos 6.963 anúncios de relógio disponíveis de fato no varejo brasileiro, com preço publicado, e separamos por cor. A primeira resposta é espetacular. A segunda desmonta a primeira.

O que o mercado inteiro diz

Cortando tudo por cor, a mediana de preço fica assim:

Cor do mostrador Anúncios disponíveis Mediana
Madrepérola 123 R$ 4.280
Marrom 115 R$ 3.490
Azul 1.502 R$ 3.199
Verde 719 R$ 3.149
Branco 456 R$ 2.998
Cinza 252 R$ 2.128
Preto 1.954 R$ 1.844
Prata 643 R$ 1.399
Dourado 378 R$ 998

Olhe para as duas cores mais vendidas do país. O azul tem mediana de R$ 3.199 e o preto, de R$ 1.844.

É uma diferença de 73%. Se você parar de ler aqui, vai concluir que mostrador azul é um item de luxo e que o preto é o econômico.

Essa conclusão é falsa, e o resto do post é sobre o motivo.

Por que esse número está errado

O problema não está na conta. Está no que estamos comparando.

As cores não estão distribuídas igualmente pelo mercado. O preto é a cor padrão do relógio barato: ele cobre o quartzo de resina, o digital de entrada e a linha de aço mais simples de toda marca japonesa.

O azul e o verde são cores de tendência, e tendência aparece primeiro nas linhas mais caras. Um mergulhador automático de aço sai em azul. Um quartzo de R$ 300 sai em preto.

Ou seja: quando você compara o preto com o azul no mercado inteiro, você não está comparando cores. Está comparando os relógios que costumam vir de cada cor.

É o mesmo tipo de armadilha do preço por canal, medida em a mesma referência, 39% mais barata: o número do agregado responde uma pergunta diferente da que você fez.

O teste honesto é outro. Pegar a mesma linha de produto e comparar cor com cor, dentro dela.

O teste dentro da mesma linha

Foi o que fizemos. Dentro de cada coleção com peças suficientes nas duas cores, comparamos a mediana do preto com a do azul.

O resultado desmonta a tabela anterior:

Coleção Preto Azul Diferença
Seiko Prospex R$ 5.499 R$ 5.499 0%
Seiko 5 Sports R$ 3.149 R$ 3.149 0%
Orient Solar Tech R$ 1.199 R$ 1.199 0%
Tissot PRX R$ 8.140 R$ 8.140 0%
Orient Diver R$ 2.199 R$ 2.200 0%
Orient 3 Estrelas R$ 1.648 R$ 1.599 -3%
Tissot Seastar R$ 5.850 R$ 6.660 +14%
Bulova Marine Star R$ 5.160 R$ 5.790 +12%
Timex Marlin R$ 2.218 R$ 1.799 -19%
Tissot PR 100 R$ 5.160 R$ 3.900 -24%

Cinco coleções cobram exatamente o mesmo preço nas duas cores. Não é aproximadamente: é o mesmo número.

E nas que variam, a variação muda de sinal. O azul é mais caro na Seastar e na Marine Star, e é mais barato na Marlin e na PR 100. Isso não é um padrão, é ruído de qual referência específica está em promoção.

Por marca o desenho se repete:

Marca Preto Azul Diferença
Tissot R$ 5.910 R$ 5.910 0%
Seiko R$ 4.399 R$ 4.499 +2%
Citizen R$ 3.990 R$ 4.490 +13%
Orient R$ 1.398 R$ 1.598 +14%
Bulova R$ 5.790 R$ 4.990 -14%

A diferença de 73% do mercado virou algo entre zero e catorze por cento, com sinal trocado na Bulova.

O que sobra dos 73% é composição, e não cor.

Cinco coleções cobram exatamente o mesmo preço em preto e em azul.
Cinco coleções cobram exatamente o mesmo preço em preto e em azul.

O dourado é o caso à parte

Uma cor merece leitura separada, porque nela o preço baixo não é ilusão de composição. Ele vem junto com uma escolha de ficha.

O mostrador dourado é o mais barato do mercado brasileiro, com mediana de R$ 998 entre 378 anúncios disponíveis.

E o vidro explica parte disso:

Vidro dos 700 anúncios dourados
Cristal mineral 390
Safira 218
Acrílico 7

Só 35% dos dourados que declaram o vidro usam safira. Compare com as outras cores, no mesmo levantamento:

Cor Safira
Azul 63%
Prata 60%
Branco 60%
Verde 58%
Preto 57%
Dourado 35%

Todas as cores comuns ficam entre 57% e 63%, e o dourado despenca para 35%. A régua completa de vidro está em safira ou mineral, e o verbete da Monochrome explica o que se perde: mineral risca com areia, e o risco não sai.

A leitura honesta é que o dourado se concentra na faixa de moda barata, onde o acabamento dourado é o argumento de venda e o vidro é onde se economiza.

Onde a leitura falha

Vale listar, porque nenhuma dessas contas é perfeita.

Nem todo anúncio declara a cor. O campo tem boa cobertura, mas não é universal, e o que não declara fica fora.

Coleção não é referência. Duas peças da mesma linha podem ter caixa e pulseira diferentes, então o teste é bom mas não é cirúrgico.

Preço de anúncio não é preço pago. Desconto de loja e negociação não aparecem aqui.

Disponibilidade muda a amostra. Só 40% do que se anuncia está de fato à venda, conta em só 40% do relógio anunciado está disponível, e usamos só o que está.

Cor rara é outra história. Madrepérola e marrom têm poucas peças e vivem em nichos específicos, então a mediana delas diz mais sobre o nicho que sobre a cor.

A moda move a régua. O verbete sobre o relógio de pulso registra mais de um século de mudanças de gosto, e a cor da vez sempre andou junto com a linha da vez.

A cor não diz nada sobre o mecanismo. Ela convive com quartzo e com mecânica, e a diferença entre os dois está no comparativo da Monochrome.

O dourado é o mais barato do mercado, e só 35% deles usam safira.
O dourado é o mais barato do mercado, e só 35% deles usam safira.

Como usar isso na compra

Escolha a cor que você quer. Ela não vai te custar mais caro dentro da linha que você já escolheu, e essa é a conclusão prática do post.

Se a loja cobrar mais pelo azul na mesma referência, é a loja. O mercado não cobra, e cinco das coleções medidas praticam o mesmo número exato.

Não use a cor para estimar preço. Ver um mostrador azul não diz que a peça é cara, diz que ela provavelmente é de uma linha mais nova.

Se o orçamento é apertado, o preto tem mais oferta barata. Não porque é barato de fazer, mas porque é a cor que as linhas de entrada usam.

No dourado, confira o vidro antes de tudo. É a única cor em que o preço baixo vem com uma queda real de ficha, com 35% de safira contra 57% a 63% do resto.

Compare sempre dentro da mesma linha. Preto de uma coleção contra azul da mesma coleção. Qualquer comparação mais larga que isso mistura produtos diferentes.

Perguntas frequentes

A cor do mostrador muda o preço do relógio?

Dentro da mesma coleção, quase não. Cinco das linhas medidas cobram exatamente o mesmo valor em preto e em azul, e nas outras a diferença varia entre menos 24% e mais 14%, sem padrão.

Por que mostrador azul parece mais caro?

Porque o azul é cor de tendência e aparece mais nas linhas novas e mais caras, enquanto o preto cobre toda a faixa de entrada. A mediana do azul fica 73% acima da do preto por causa dessa distribuição, não da cor.

Qual a cor de mostrador mais barata do Brasil?

O dourado, com mediana de R$ 998 entre 378 anúncios disponíveis. Em seguida vêm prata, com R$ 1.399, e preto, com R$ 1.844.

Mostrador dourado é de qualidade pior?

Não pela cor, mas pela companhia. Só 35% dos dourados que declaram o vidro usam safira, contra 57% a 63% das outras cores comuns, porque a cor se concentra na faixa de moda barata.

Vale pagar mais por um mostrador verde?

Não há por que pagar. No mesmo levantamento o verde fica praticamente colado no preto dentro de cada marca, por exemplo R$ 4.399 nas duas cores na Seiko.

Qual cor de mostrador tem mais safira?

O azul, com 63% dos anúncios que declaram o material, seguido de prata e branco com 60%. O dourado é o último, com 35%.

O que fica

A resposta curta é que a cor do mostrador não muda o preço, e a resposta longa é mais útil que ela.

No mercado inteiro, o azul tem mediana de R$ 3.199 e o preto, R$ 1.844, uma diferença de 73% que parece decisiva. Ela não é.

Quando o teste é feito dentro da mesma coleção, a diferença some. Seiko Prospex, Seiko 5 Sports, Orient Solar Tech, Tissot PRX e Orient Diver cobram o mesmo número exato nas duas cores, e nas linhas que variam o sinal troca: o azul é 14% mais caro na Seastar e 24% mais barato na PR 100.

Os 73% não medem cor. Medem quais relógios costumam vir de cada cor, e é uma armadilha que aparece toda vez que se compara um agregado grande sem controlar o que está dentro dele.

A exceção é o dourado, e ali o barato tem causa: mediana de R$ 998 e apenas 35% de safira, contra 57% a 63% de todas as outras cores comuns.

Então escolha a cor pelo pulso e pelo gosto. Ela é de graça em quase todo lugar, e a linha da ficha que decide o uso diário continua sendo o vidro.

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