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Citizen Brycen: nunca troca pilha, nunca acerta data, e o vidro é o problema

Gustavo Grossi 7 min de leitura
Citizen Brycen de mostrador azul com cronógrafo e bracelete de aço sobre pedra clara

Existe uma combinação de funções que resolve praticamente toda a manutenção de um relógio, e ela custa pouco mais de dois mil reais. O que ela não resolve é o vidro.

Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, que abastece o radar. É o que a gente consegue ver hoje, e não um censo do mercado.

O que a linha se propõe a fazer

Todo relógio cobra alguma manutenção. O de quartzo comum cobra troca de pilha a cada dois ou três anos, com a caixa sendo aberta em cada troca. O mecânico cobra revisão periódica e reacerto quando fica parado. E praticamente todos cobram ajuste de data nos meses de trinta dias.

A proposta do Brycen é eliminar as três coisas ao mesmo tempo. Ele é um cronógrafo de aço, com calendário e com o sistema de carga por luz da Citizen, e foi desenhado para funcionar por anos sem que ninguém precise abrir nada nem mexer em nada.

Na nossa base a linha é pequena: são 15 peças prontas para sair, de 25 anunciadas, com preço de R$ 2.200 a R$ 4.490 e mediana em R$ 3.490.

É pouca peça, e isso limita a escolha de cor e de pulseira. Mas a proposta técnica é específica o bastante para valer a explicação.

Movida a luz, as quinze

As quinze peças prontas se movem a luz. Nenhuma pilha, nenhuma corda.

Vale entender o mecanismo, porque ele é frequentemente descrito de forma errada. Não existe painel solar visível no mostrador. O que existe é uma célula fotovoltaica montada logo abaixo do mostrador, que deixa passar luz suficiente para gerar energia, e essa energia carrega uma bateria recarregável interna. O relógio continua sendo um quartzo comum em tudo o mais, com a precisão que isso traz: ele mede melhor que qualquer mecânica, com folga, conforme o comparativo da Monochrome.

O nome comercial disso na Citizen é Eco-Drive, e o histórico da tecnologia registra que ela chegou à América Latina em 1995. É ela a razão de a marca ter mais relógio movido a luz do que qualquer outra por aqui. Quando levantamos a categoria inteira, em relógio solar vale a pena, descobrimos que metade dos anúncios usa a palavra solar e a outra metade usa Eco-Drive, e quem filtra só por uma delas perde a maior parte do que existe.

O efeito prático de não ter pilha é maior do que parece. Cada abertura de caixa é uma chance de a vedação piorar, então um relógio que nunca precisa ser aberto tende a manter a resistência à água que tinha quando saiu da fábrica. Luz artificial de ambiente já basta para manter a carga, ainda que carregue mais devagar que o sol.

As quinze peças prontas se movem a luz, sem pilha e sem corda.
As quinze peças prontas se movem a luz, sem pilha e sem corda.

O calendário que não pede ajuste

A segunda função da linha é a que dá nome a algumas referências, e ela costuma ser mal entendida.

Um relógio com data simples não sabe quantos dias tem cada mês. Ele avança de 31 para 1 sempre, então em todo mês de trinta dias, e principalmente em fevereiro, você precisa corrigir manualmente. São cinco correções por ano, no mínimo.

Um calendário perpétuo conhece a duração de cada mês, inclusive os anos bissextos, e faz a virada sozinho. Você não mexe. Numa peça movida a luz, que também nunca para para trocar pilha, o resultado é um relógio que pode passar anos sem receber nenhuma intervenção.

Essa combinação é rara na faixa de preço. É o tipo de coisa que costuma aparecer em relógio muito mais caro, e é o argumento central da linha.

A contrapartida honesta é que, se o relógio ficar guardado no escuro até descarregar completamente, ele para e precisa ser reconfigurado. A conveniência existe enquanto o relógio é usado.

O vidro é o ponto fraco

Agora a parte que impede a recomendação de ser simples.

Vidro do Brycen Peças
Cristal mineral 13
Safira 2

Treze das quinze peças prontas usam cristal mineral. Apenas duas trazem safira.

A diferença entre os dois materiais é a que mais aparece no dia a dia. Safira marca 9 na escala de dureza de Mohs e praticamente nada do cotidiano risca ela. Cristal mineral é vidro endurecido: ele risca com areia de praia, com quina de mesa e com a chave do carro, e o risco não sai mais, conforme o verbete da Monochrome.

O incômodo aqui é de coerência. A linha inteira foi desenhada para não exigir manutenção nenhuma por anos, e o vidro é justamente a peça que vai marcar nesse período e não tem conserto. Você tem um relógio que nunca precisa abrir, com um cristal que vai contando os anos na superfície.

E o preço não explica a escolha. Quando cruzamos vidro com faixa de preço em safira ou mineral, a faixa entre R$ 3.000 e R$ 6.000 já entrega safira na maioria dos anúncios. O Brycen fica abaixo do padrão da própria faixa em que vende.

Onde ele decepciona

A caixa é grande. Seis das quinze peças têm 44,8 mm e quatro têm 44 mm, muito acima da medida central de 40,5 mm que medimos em qual o tamanho de relógio mais comum. Em pulso fino um cronógrafo desse tamanho avança sobre o osso.

A oferta é curta. Quinze peças prontas significa que a cor e a pulseira que você quer podem simplesmente não existir hoje entre as lojas que acompanhamos.

E a bateria recarregável, ainda que dure muitos anos, não é eterna: um dia ela perde capacidade e a caixa precisa ser aberta por um relojoeiro. A promessa correta é abrir muito menos, e não nunca.

Treze das quinze peças usam cristal mineral, e apenas duas trazem safira.
Treze das quinze peças usam cristal mineral, e apenas duas trazem safira.

Qual comprar

Se a proposta de não mexer no relógio é o que te atrai, a linha entrega isso a partir de R$ 2.200, e é difícil achar essa combinação por menos.

Se o relógio vai ser usado todo dia e você se incomoda com risco no vidro, procure especificamente as duas peças com safira. São poucas, então essa busca precisa ser feita antes da escolha de cor, e não depois.

Se o pulso é fino, olhe as peças de 43 mm em vez das de 44,8 mm, porque num cronógrafo essa diferença é sentida.

E se você quer a tecnologia de carga por luz sem precisar do cronógrafo, o caminho é mais largo do que essa linha: a Citizen tem centenas de peças movidas a luz por aqui, com panorama em Citizen Eco-Drive vale a pena.

Perguntas frequentes

O Citizen Brycen vale a pena?

Vale pela proposta de manutenção quase nula, com carga por luz e calendário que não pede ajuste, a partir de R$ 2.200. O ponto fraco é o vidro: treze das quinze peças prontas usam cristal mineral.

Quanto custa um Citizen Brycen?

De R$ 2.200 a R$ 4.490 entre as peças prontas na nossa base, com mediana em R$ 3.490.

O Brycen precisa de pilha?

Não. As quinze peças prontas se movem a luz, carregando uma bateria recarregável interna através de uma célula montada sob o mostrador.

O Brycen tem safira?

Apenas duas das quinze peças prontas. As outras treze usam cristal mineral, que risca com areia e não tem conserto.

Qual o tamanho do Citizen Brycen?

Grande. Seis peças têm 44,8 mm e quatro têm 44 mm, contra a medida central de 40,5 mm do mercado que acompanhamos.

O relógio movido a luz para se ficar guardado?

Para, se ficar no escuro até descarregar. Nesse caso ele precisa ser reconfigurado, e a conveniência de nunca mexer só vale enquanto o relógio é usado.

O que fica

O Brycen resolve, por pouco mais de dois mil reais, quase toda a manutenção de rotina de um relógio. As quinze peças prontas na nossa base se movem a luz, o que elimina a troca de pilha e as aberturas de caixa que vêm com ela, e o calendário dispensa o ajuste dos meses curtos.

Essa combinação é incomum nessa faixa, e é o motivo real para olhar a linha.

O que atrapalha é uma incoerência de projeto. Treze das quinze peças usam cristal mineral, e o vidro é justamente a parte que vai marcar ao longo dos anos em que o relógio funciona sozinho, sem conserto possível.

Restam duas peças com safira entre as prontas. Se a ideia de comprar um relógio para esquecer dele é o que te trouxe até aqui, é por essas duas que a busca deve começar.

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