Não tem" significa duas coisas, e o preço decide qual das duas
Você clica num relógio e ele não está pronto para sair. Isso pode significar “espere três semanas” ou “esqueça”, e o que decide qual das duas é o preço da etiqueta.
Já medimos que só 39% do que se anuncia no Brasil tem peça pronta, conta em só 40% do relógio anunciado está disponível.
Aqui olhamos os outros 61%, que não são um grupo só.
Duas formas de não estar disponível
O campo de disponibilidade tem três estados, e os dois últimos são muito diferentes entre si.
Disponível. A peça está na caixa e sai hoje.
Sob encomenda. A loja não tem, mas busca. Existe prazo, e existe caminho.
Indisponível. A loja não tem e não vai buscar. O anúncio continua no ar por inércia de catálogo.
Para quem está comprando, a diferença entre os dois últimos é tudo: um é espera, o outro é beco sem saída. E ela não está distribuída por acaso.
A escada da encomenda
Cruzamos os 18.598 anúncios com preço por faixa. Olhe a coluna do meio de cima para baixo:
| Faixa | Anúncios | Disponível | Sob encomenda | Indisponível |
|---|---|---|---|---|
| Até R$ 500 | 1.162 | 39% | 0% | 61% |
| R$ 500 a R$ 1.500 | 3.275 | 59% | 2% | 40% |
| R$ 1.500 a R$ 3.000 | 3.078 | 50% | 27% | 24% |
| R$ 3.000 a R$ 6.000 | 5.991 | 38% | 43% | 19% |
| R$ 6.000 a R$ 12.000 | 3.151 | 26% | 61% | 13% |
| Acima de R$ 12.000 | 1.941 | 9% | 85% | 6% |
Zero, dois, vinte e sete, quarenta e três, sessenta e um, oitenta e cinco.
A encomenda sobe sem uma única quebra, de 0% na faixa mais barata a 85% acima de R$ 12.000. Não existe outro campo do levantamento que se comporte com essa regularidade.
Na prática: num relógio acima de doze mil reais, o normal é não ter. Só 9% está pronto para sair, e nove de cada dez anúncios são um pedido a ser feito.
Faz sentido comercial. Peça cara é capital parado, então a loja anuncia o catálogo do distribuidor e compra quando você fecha. É um arranjo antigo do comércio de bens duráveis, e o verbete sobre mercado cinza descreve os canais paralelos que convivem com ele. É o mesmo mecanismo que sustenta os dois patamares de preço medidos em a mesma referência, 39% mais barata.
A escada inversa
A última coluna desce com a mesma regularidade, e conta a outra metade.
Sessenta e um, quarenta, vinte e quatro, dezenove, treze, seis.
Abaixo de R$ 500, 61% dos anúncios são simplesmente indisponíveis, sem encomenda nenhuma. É a maior taxa de anúncio morto do mercado.
E a razão é econômica. Ninguém encomenda um relógio de trezentos reais. O frete, o trabalho e o risco não cabem na margem, então o que acabou não volta: o anúncio fica no ar até alguém limpar o catálogo.
Ou seja, as duas pontas do mercado falham de formas opostas:
| Se não está disponível | |
|---|---|
| Barato | provavelmente acabou, e não volta |
| Caro | provavelmente vai ser pedido, com prazo |
A mesma frase, “não tem”, significa coisas contrárias nas duas pontas.


Onde a prateleira é mais cheia
A coluna da esquerda não é uma escada, é um morro, e o topo dele fica onde quase ninguém procura.
A melhor disponibilidade do mercado está entre R$ 500 e R$ 1.500, com 59%.
Acima dela a taxa cai de forma contínua até os 9% da faixa mais cara. E abaixo dela também cai, para 39%, porque ali entra o anúncio morto.
Essa faixa de R$ 500 a R$ 1.500 é onde giro alto e preço baixo se encontram: a loja repõe rápido porque vende rápido, e o capital parado é pequeno. É a mesma região que concentra Orient e Casio, medida em marca no catálogo e na prateleira, e o detalhe do que existe ali está em melhor relógio até R$ 1.000.
Onde a leitura falha
Vale listar, porque o campo é o mais volátil do levantamento.
É uma foto de hoje. Reposição e liquidação mudam a tabela em uma semana.
Sob encomenda não tem prazo padrão. Pode ser duas semanas ou três meses, e o anúncio quase nunca diz.
Indisponível não é sempre definitivo. Às vezes é ruptura curta, e a peça volta.
A loja classifica do jeito dela. O critério não é padronizado entre as vinte lojas varridas.
Preço alto não garante origem oficial. Encomenda pode vir por caminhos diferentes, e o que muda é a garantia, assunto do verbete sobre importação paralela e do verbete sobre garantia, que separa a cobertura do fabricante da cobertura do vendedor.
Disponibilidade não é qualidade. Prateleira cheia costuma indicar procura menor, padrão que já apareceu em o tamanho mais vendido é o mais difícil.
O que isso muda
Leia o estado, não só o preço. Sob encomenda e indisponível são situações opostas com a mesma aparência na página.
Se a peça é barata e não está disponível, procure outra. Abaixo de R$ 500 a encomenda praticamente não existe, com 0% da faixa.
Se a peça é cara, encomenda é o normal. Acima de R$ 12.000 são 85%, então esperar não é sinal de problema.
Peça o prazo por escrito, sempre. É o dado que o anúncio não traz e que decide a compra.
Se você quer comprar rápido, mire entre R$ 500 e R$ 1.500. É a faixa com a melhor taxa do mercado, 59%.
Não pague sinal sem data. Encomenda sem prazo definido é o pior arranjo possível para o comprador.
Considere a peça equivalente disponível. Numa faixa em que 85% é encomenda, o que está pronto tem valor próprio.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre indisponível e sob encomenda?
Sob encomenda significa que a loja busca a peça, com prazo. Indisponível significa que ela não tem e não vai buscar, e o anúncio segue no ar por inércia de catálogo.
Por que quase todo relógio caro está sob encomenda?
Porque peça cara é capital parado. Acima de R$ 12.000, 85% dos anúncios são sob encomenda e apenas 9% têm peça pronta.
Relógio barato indisponível volta ao estoque?
Muitas vezes não. Abaixo de R$ 500 a encomenda é praticamente inexistente, então 61% dos anúncios da faixa são indisponíveis sem caminho de reposição.
Qual faixa de preço tem mais relógio pronto para entrega?
A de R$ 500 a R$ 1.500, com 59% de disponibilidade, a melhor do mercado brasileiro.
Quanto tempo demora um relógio sob encomenda?
O levantamento não traz prazo, e os anúncios raramente informam. É a pergunta a fazer por escrito antes de qualquer pagamento.
Vale esperar por encomenda?
Depende da faixa. Acima de R$ 6.000 esperar é o normal do mercado. Abaixo de R$ 1.500 quase sempre existe alternativa pronta.
O que fica
O campo de disponibilidade parece binário e não é. Ele tem dois jeitos de dizer não, e o preço decide qual deles você recebeu.
A encomenda sobe sem quebra com o preço: 0%, 2%, 27%, 43%, 61% e 85% acima de R$ 12.000. Na ponta cara do mercado, o normal é a loja não ter e buscar.
O anúncio morto faz o caminho contrário: 61%, 40%, 24%, 19%, 13% e 6%. Abaixo de R$ 500, seis de cada dez anúncios são peça que acabou e não volta, porque encomendar um relógio de trezentos reais não paga o trabalho.
E a prateleira mais cheia não está em nenhuma das pontas. Ela está entre R$ 500 e R$ 1.500, com 59%, onde giro alto encontra capital baixo.
Então, quando a página disser que não tem, olhe o preço antes de decidir o que fazer. Na parte de cima isso quer dizer espere. Na parte de baixo quer dizer procure outro.
