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Não tem" significa duas coisas, e o preço decide qual das duas

Gustavo Grossi 6 min de leitura
Balcão de relojoaria com uma caixa aberta e vazia ao lado de um caderno de encomendas

Você clica num relógio e ele não está pronto para sair. Isso pode significar “espere três semanas” ou “esqueça”, e o que decide qual das duas é o preço da etiqueta.

Já medimos que só 39% do que se anuncia no Brasil tem peça pronta, conta em só 40% do relógio anunciado está disponível.

Aqui olhamos os outros 61%, que não são um grupo só.

Duas formas de não estar disponível

O campo de disponibilidade tem três estados, e os dois últimos são muito diferentes entre si.

Disponível. A peça está na caixa e sai hoje.

Sob encomenda. A loja não tem, mas busca. Existe prazo, e existe caminho.

Indisponível. A loja não tem e não vai buscar. O anúncio continua no ar por inércia de catálogo.

Para quem está comprando, a diferença entre os dois últimos é tudo: um é espera, o outro é beco sem saída. E ela não está distribuída por acaso.

A escada da encomenda

Cruzamos os 18.598 anúncios com preço por faixa. Olhe a coluna do meio de cima para baixo:

Faixa Anúncios Disponível Sob encomenda Indisponível
Até R$ 500 1.162 39% 0% 61%
R$ 500 a R$ 1.500 3.275 59% 2% 40%
R$ 1.500 a R$ 3.000 3.078 50% 27% 24%
R$ 3.000 a R$ 6.000 5.991 38% 43% 19%
R$ 6.000 a R$ 12.000 3.151 26% 61% 13%
Acima de R$ 12.000 1.941 9% 85% 6%

Zero, dois, vinte e sete, quarenta e três, sessenta e um, oitenta e cinco.

A encomenda sobe sem uma única quebra, de 0% na faixa mais barata a 85% acima de R$ 12.000. Não existe outro campo do levantamento que se comporte com essa regularidade.

Na prática: num relógio acima de doze mil reais, o normal é não ter. Só 9% está pronto para sair, e nove de cada dez anúncios são um pedido a ser feito.

Faz sentido comercial. Peça cara é capital parado, então a loja anuncia o catálogo do distribuidor e compra quando você fecha. É um arranjo antigo do comércio de bens duráveis, e o verbete sobre mercado cinza descreve os canais paralelos que convivem com ele. É o mesmo mecanismo que sustenta os dois patamares de preço medidos em a mesma referência, 39% mais barata.

A escada inversa

A última coluna desce com a mesma regularidade, e conta a outra metade.

Sessenta e um, quarenta, vinte e quatro, dezenove, treze, seis.

Abaixo de R$ 500, 61% dos anúncios são simplesmente indisponíveis, sem encomenda nenhuma. É a maior taxa de anúncio morto do mercado.

E a razão é econômica. Ninguém encomenda um relógio de trezentos reais. O frete, o trabalho e o risco não cabem na margem, então o que acabou não volta: o anúncio fica no ar até alguém limpar o catálogo.

Ou seja, as duas pontas do mercado falham de formas opostas:

Se não está disponível
Barato provavelmente acabou, e não volta
Caro provavelmente vai ser pedido, com prazo

A mesma frase, “não tem”, significa coisas contrárias nas duas pontas.

A encomenda sobe de 0% a 85% com o preço. O anúncio morto cai de 61% a 6%.
A encomenda sobe de 0% a 85% com o preço. O anúncio morto cai de 61% a 6%.
Acima de R$ 12.000, só 9% está pronto e 85% é encomenda.
Acima de R$ 12.000, só 9% está pronto e 85% é encomenda.

Onde a prateleira é mais cheia

A coluna da esquerda não é uma escada, é um morro, e o topo dele fica onde quase ninguém procura.

A melhor disponibilidade do mercado está entre R$ 500 e R$ 1.500, com 59%.

Acima dela a taxa cai de forma contínua até os 9% da faixa mais cara. E abaixo dela também cai, para 39%, porque ali entra o anúncio morto.

Essa faixa de R$ 500 a R$ 1.500 é onde giro alto e preço baixo se encontram: a loja repõe rápido porque vende rápido, e o capital parado é pequeno. É a mesma região que concentra Orient e Casio, medida em marca no catálogo e na prateleira, e o detalhe do que existe ali está em melhor relógio até R$ 1.000.

Onde a leitura falha

Vale listar, porque o campo é o mais volátil do levantamento.

É uma foto de hoje. Reposição e liquidação mudam a tabela em uma semana.

Sob encomenda não tem prazo padrão. Pode ser duas semanas ou três meses, e o anúncio quase nunca diz.

Indisponível não é sempre definitivo. Às vezes é ruptura curta, e a peça volta.

A loja classifica do jeito dela. O critério não é padronizado entre as vinte lojas varridas.

Preço alto não garante origem oficial. Encomenda pode vir por caminhos diferentes, e o que muda é a garantia, assunto do verbete sobre importação paralela e do verbete sobre garantia, que separa a cobertura do fabricante da cobertura do vendedor.

Disponibilidade não é qualidade. Prateleira cheia costuma indicar procura menor, padrão que já apareceu em o tamanho mais vendido é o mais difícil.

O que isso muda

Leia o estado, não só o preço. Sob encomenda e indisponível são situações opostas com a mesma aparência na página.

Se a peça é barata e não está disponível, procure outra. Abaixo de R$ 500 a encomenda praticamente não existe, com 0% da faixa.

Se a peça é cara, encomenda é o normal. Acima de R$ 12.000 são 85%, então esperar não é sinal de problema.

Peça o prazo por escrito, sempre. É o dado que o anúncio não traz e que decide a compra.

Se você quer comprar rápido, mire entre R$ 500 e R$ 1.500. É a faixa com a melhor taxa do mercado, 59%.

Não pague sinal sem data. Encomenda sem prazo definido é o pior arranjo possível para o comprador.

Considere a peça equivalente disponível. Numa faixa em que 85% é encomenda, o que está pronto tem valor próprio.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre indisponível e sob encomenda?

Sob encomenda significa que a loja busca a peça, com prazo. Indisponível significa que ela não tem e não vai buscar, e o anúncio segue no ar por inércia de catálogo.

Por que quase todo relógio caro está sob encomenda?

Porque peça cara é capital parado. Acima de R$ 12.000, 85% dos anúncios são sob encomenda e apenas 9% têm peça pronta.

Relógio barato indisponível volta ao estoque?

Muitas vezes não. Abaixo de R$ 500 a encomenda é praticamente inexistente, então 61% dos anúncios da faixa são indisponíveis sem caminho de reposição.

Qual faixa de preço tem mais relógio pronto para entrega?

A de R$ 500 a R$ 1.500, com 59% de disponibilidade, a melhor do mercado brasileiro.

Quanto tempo demora um relógio sob encomenda?

O levantamento não traz prazo, e os anúncios raramente informam. É a pergunta a fazer por escrito antes de qualquer pagamento.

Vale esperar por encomenda?

Depende da faixa. Acima de R$ 6.000 esperar é o normal do mercado. Abaixo de R$ 1.500 quase sempre existe alternativa pronta.

O que fica

O campo de disponibilidade parece binário e não é. Ele tem dois jeitos de dizer não, e o preço decide qual deles você recebeu.

A encomenda sobe sem quebra com o preço: 0%, 2%, 27%, 43%, 61% e 85% acima de R$ 12.000. Na ponta cara do mercado, o normal é a loja não ter e buscar.

O anúncio morto faz o caminho contrário: 61%, 40%, 24%, 19%, 13% e 6%. Abaixo de R$ 500, seis de cada dez anúncios são peça que acabou e não volta, porque encomendar um relógio de trezentos reais não paga o trabalho.

E a prateleira mais cheia não está em nenhuma das pontas. Ela está entre R$ 500 e R$ 1.500, com 59%, onde giro alto encontra capital baixo.

Então, quando a página disser que não tem, olhe o preço antes de decidir o que fazer. Na parte de cima isso quer dizer espere. Na parte de baixo quer dizer procure outro.

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