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Um em cada cinco anúncios de relógio esconde alguma coisa de você

Gustavo Grossi 7 min de leitura
Ficha técnica impressa sobre uma mesa com várias linhas em branco

Comparar dois relógios exige que os dois digam as mesmas coisas. Fomos medir com que frequência o anúncio brasileiro simplesmente não diz, e a resposta é mais alta do que parece.

Varremos 19.202 anúncios de relógio no varejo brasileiro e contamos, campo a campo, quantos declaram e quantos ficam em silêncio.

O que o levantamento consegue ler

Primeiro o que existe. Estes são os campos que a maioria dos anúncios publica:

Campo Declaram Cobertura
Mostrador 18.281 95%
Coleção 17.781 93%
Vidro 17.378 91%
Movimento 16.999 89%
Caixa 17.158 89%
Pulseira 17.131 89%

Nenhum chega a 100%, e essa é a primeira coisa a entender: não existe ficha completa por padrão no varejo brasileiro. Existe uma ficha que quase sempre está lá.

O campo mais bem coberto é a cor do mostrador, que é o que a foto já mostra. Os campos que exigem trabalho de cadastro caem para 89%.

Um em cada cinco cala alguma coisa

Campo a campo o buraco parece pequeno. Somado, ele muda de tamanho.

Contamos quantos anúncios deixam de declarar pelo menos um dos cinco campos de ficha:

Anúncios
Calam pelo menos um campo 3.932
Fatia do mercado 20%
Calam três ou mais 1.464

Um em cada cinco anúncios do país deixa de responder alguma coisa. E 1.464 deles calam três campos ou mais, o que na prática é um anúncio com foto, nome e preço, e pouco mais que isso.

O detalhe por campo mostra onde o silêncio se concentra:

Campo Anúncios que calam
Movimento 2.203
Pulseira 2.071
Caixa 2.044
Vidro 1.824
Coleção 1.421
Mostrador 921

O vidro é o campo que mais decide o uso diário, e 1.824 anúncios não dizem qual é. O verbete da Monochrome explica o que está em jogo: safira quase não risca, mineral risca com areia e o risco não sai. A escada de preço desse campo está em safira ou mineral.

Um em cada cinco anúncios cala pelo menos um campo da ficha.
Um em cada cinco anúncios cala pelo menos um campo da ficha.

O silêncio não é aleatório

Aqui vale um cuidado, porque a leitura fácil desse dado está errada.

Olhando o mercado inteiro, o anúncio que cala o vidro tem mediana de R$ 759, contra R$ 2.999 de quem declara. Parece que esconder ficha é coisa de peça barata, e que o silêncio custa 75% do preço.

Não é isso. Quando refazemos a conta dentro de cada marca, o efeito se desmancha e às vezes troca de sinal:

Marca Declara o vidro Cala o vidro Diferença
Seiko R$ 4.499 R$ 4.999 +11%
Bulova R$ 5.190 R$ 5.140 -1%
Citizen R$ 3.999 R$ 3.180 -20%
Orient R$ 1.399 R$ 700 -50%
Casio R$ 799 R$ 391 -51%

Na Seiko o anúncio calado é mais caro, não mais barato. Na Bulova não muda nada.

O que os 75% do agregado medem é onde o silêncio mora: ele se concentra nas linhas de entrada de Orient e Casio, que são muitas e são baratas. É a mesma armadilha de composição que já apareceu na cor do mostrador, medida em a cor do mostrador muda o preço.

A leitura correta é mais útil que a fácil: anúncio calado não significa peça ruim nem peça barata. Significa que você vai ter que perguntar.

Os campos que não dá para comparar

Existe um segundo tipo de silêncio, e ele é mais sério que o primeiro.

Quatro campos que decidem uso, conforto e custo de longo prazo não aparecem de forma comparável em lugar nenhum do varejo brasileiro:

O campo Por que importa
Resistência à água decide se o relógio entra no chuveiro ou no mar
Espessura da caixa decide se ele passa sob a manga
Calibre do movimento decide manutenção, peça e reserva
Garantia decide quem paga se parar no oitavo mês

Uma loja ou outra publica um deles em texto livre, mas não num campo que dê para cruzar entre lojas. Na prática, você não consegue comparar dois relógios por esses critérios sem escrever para alguém.

A água é a ausência que mais custa. O texto técnico da Monochrome sobre mergulhadores mostra o quanto o número muda o uso, e a régua está em 30, 50, 100 e 200 metros.

A espessura é a segunda. Duas caixas de 40 mm com alturas diferentes ocupam o pulso de forma diferente, ponto detalhado em qual o tamanho de relógio mais comum.

E o calibre é o terceiro. O verbete sobre relógio mecânico mostra por que ele importa numa peça mecânica: é o calibre que decide reserva, peça de reposição e quem consegue abrir o relógio.

Onde a leitura falha

Vale listar, porque medir ausência tem limites.

Silêncio não é omissão deliberada. Boa parte é cadastro incompleto, e não estratégia.

O texto livre às vezes tem o dado. A descrição pode dizer o que o campo não diz, e isso não entra numa varredura comparável.

Loja diferente cadastra diferente. São vinte lojas e vinte padrões.

Declarar não é garantir. Campo preenchido também pode estar errado.

A cobertura muda com o tempo. Cadastro melhora, e a foto de hoje não vale para sempre.

Preço não entra nesta conta. Quanto cada marca cobra está em qual marca de relógio é mais barata.

Água, espessura, calibre e garantia não existem de forma comparável.
Água, espessura, calibre e garantia não existem de forma comparável.

O que perguntar antes de fechar

Pergunte o vidro sempre. É o campo que mais muda o uso diário e o que 1.824 anúncios não trazem.

Pergunte a resistência à água em metros. Não aceite “resistente a respingos”, peça o número.

Pergunte a espessura. É o dado que decide o encaixe sob a manga e ele quase nunca é publicado.

Pergunte quem honra a garantia, e por quanto tempo. Por escrito.

Peça o calibre se o relógio é mecânico. Ele decide manutenção e peça de reposição.

Desconfie do anúncio que cala três campos. São 1.464 assim, e ali o esforço de perguntar é maior que o de procurar outro.

Não conclua que o calado é pior. Na Seiko ele é até mais caro. O silêncio é sobre cadastro, não sobre qualidade.

Perguntas frequentes

O que um anúncio de relógio deveria dizer?

No mínimo o vidro, o movimento, o diâmetro da caixa, o material da pulseira e a resistência à água. Os quatro primeiros aparecem em cerca de 90% dos anúncios brasileiros, e o último quase nunca aparece de forma comparável.

Quantos anúncios de relógio escondem informação?

Um em cada cinco deixa de declarar pelo menos um campo da ficha, ou 3.932 em 19.202. E 1.464 deixam de declarar três campos ou mais.

Anúncio sem ficha completa é sinal de golpe?

Não. Na maioria dos casos é cadastro incompleto de loja. Dentro da Seiko, por exemplo, o anúncio que cala o vidro é 11% mais caro que o que declara.

Qual campo falta com mais frequência?

O movimento, ausente em 2.203 anúncios, seguido de pulseira com 2.071 e caixa com 2.044. O vidro falta em 1.824.

Por que quase ninguém publica a resistência à água?

Porque não existe padrão de cadastro para ela no varejo brasileiro. Uma loja ou outra escreve no texto, mas não num campo que permita comparar entre lojas.

Vale comprar um relógio sem saber o vidro?

Só depois de perguntar. É a linha da ficha que aparece primeiro no uso, e a diferença entre safira e mineral se nota no primeiro ano.

O que fica

Comparar relógio exige que os dois lados digam a mesma coisa, e no Brasil isso falha com frequência.

Os campos principais ficam entre 89% e 95% de cobertura, o que parece bom até você somar: um em cada cinco anúncios cala pelo menos um deles, e 1.464 calam três ou mais.

O campo que mais falta é o movimento, com 2.203 ausências, e o que mais dói é o vidro, com 1.824, porque é ele que decide o uso diário.

E há o segundo silêncio, que é maior. Água, espessura, calibre e garantia não existem de forma comparável em lugar nenhum, então esses quatro só saem por pergunta direta.

Uma coisa o dado não autoriza: concluir que o anúncio calado é pior. Dentro da Seiko ele é 11% mais caro, e a queda de 75% que aparece no mercado inteiro é só o retrato de onde o silêncio mora, nas linhas de entrada de duas marcas grandes.

O anúncio que não diz não está escondendo. Está esperando você perguntar.

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