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Bulova Wilton: a peça mais barata é a única com safira, e a mesma referência custa o dobro

Gustavo Grossi 8 min de leitura
Bulova Wilton automático dourado de correia de couro marrom sobre madeira escura

A gente costuma supor que dentro de uma mesma coleção o preço acompanha a ficha. Nesta linha da Bulova isso simplesmente não acontece, e a peça mais barata das nove leva o vidro que as intermediárias não têm.

Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, a que abastece o radar. É o que a gente enxerga hoje, e não um retrato do país inteiro.

O que a Wilton é

A ficha da Bulova descreve uma casa americana de 1875 que construiu a identidade técnica moderna dela sobre eletrônica, com o Accutron de diapasão e depois o Precisionist de quartzo de alta frequência.

A Wilton é a linha clássica da casa. Caixa redonda, mostrador limpo, muita correia de couro e um ar deliberadamente tradicional. É relógio de vestir.

Na nossa base ela aparece com 9 peças prontas para sair, de 33 anunciadas, com preço entre R$ 2.200 e R$ 10.529 e mediana em R$ 3.990.

Vinte e sete por cento de disponibilidade é baixo, e a razão é a mesma que medimos em relógio indisponível ou sob encomenda: quase três em cada quatro anúncios da linha não têm produto hoje.

A amplitude de preço é o que chama atenção primeiro. Quase cinco vezes separam a peça mais barata da mais cara, dentro do mesmo nome. E é aí que o texto começa.

Wilton na nossa base
Peças prontas 9 de 33
Preço R$ 2.200 a R$ 10.529
Mediana R$ 3.990
Vidro mineral em 6, safira em 3
Movimento quartzo em 6, automático em 3
Caixa 41 mm em 5, 43 mm em 3, 46 mm em 1

A mais barata é a que tem o melhor vidro

Aqui está o achado, e ele fica evidente quando as nove peças aparecem em ordem de preço.

Peça pronta Vidro Movimento
R$ 2.200 Safira Quartzo
R$ 2.249 Mineral Automático
R$ 3.690 Mineral Quartzo
R$ 3.690 Mineral Quartzo
R$ 3.990 Mineral Quartzo
R$ 3.990 Mineral Quartzo
R$ 4.250 Safira Automático
R$ 5.290 Mineral Quartzo
R$ 10.529 Safira Automático

Leia a coluna do meio de cima para baixo e o padrão some. A peça de R$ 2.200 traz safira. As quatro peças entre R$ 3.690 e R$ 3.990 trazem cristal mineral. A de R$ 5.290, que é a terceira mais cara da lista, também traz cristal mineral.

Ou seja, dentro desta coleção você pode pagar R$ 3.290 a mais e levar o vidro pior.

Vale explicar o que está em jogo nessa linha da ficha, porque ela é abstrata no anúncio e bem concreta no pulso. Safira é óxido de alumínio cristalizado e marca 9 na escala de dureza de Mohs, então quase nada do cotidiano risca ela. Cristal mineral é vidro comum endurecido por tratamento, e ele marca com areia, com a quina de uma mesa e com a chave do carro, conforme o verbete da Monochrome. Risco em vidro não sai. Ou troca o cristal, ou fica.

Existe uma explicação para a bagunça, e ela não é má-fé. O preço de cada peça responde ao acabamento da caixa, ao tipo de pulseira e ao custo do movimento, e não a uma tabela de qualidade de vidro. As quatro peças de R$ 3.690 a R$ 3.990 têm bracelete de aço, que encarece bastante em relação a uma correia de couro, e é por aí que o dinheiro sobe.

Mas essa explicação não muda o que interessa a quem compra. O preço, dentro desta linha, não é um indicador confiável de ficha técnica. Ele precisa ser conferido campo a campo.

A peça de dois mil e duzentos reais traz safira, e as de quase quatro mil trazem cristal mineral.
A peça de dois mil e duzentos reais traz safira, e as de quase quatro mil trazem cristal mineral.

A mesma referência pelo dobro

Agora o caso mais extremo da lista, e ele merece a explicação inteira.

A referência 97B210, que é o Wilton automático dourado com segundo fuso e correia de couro, aparece duas vezes entre as peças prontas da nossa varredura.

A mesma referência, dois anúncios
Anunciada como usada R$ 4.250
Anunciada como nova R$ 10.529
Diferença R$ 6.279

O código de referência é idêntico nos dois, e referência é justamente o campo que a marca usa para distinguir versão e acabamento. Mesmo relógio, portanto.

A diferença está na condição. Um dos anúncios descreve a peça como usada, e o outro a vende como nova. Isso explica a distância, mas o tamanho dela ainda surpreende, porque o anúncio de peça usada pede 40% do preço da nova.

Vale abrir esse ponto, porque ele é útil para além desta linha. Relógio usado costuma ser negociado bem acima de 40% do valor de novo, principalmente em peça recente de marca conhecida. Quando a distância é grande assim, ela tende a significar uma de três coisas: a peça usada está muito bem precificada, o anúncio de peça nova está acima do mercado, ou existe alguma diferença de estado que a ficha não mostra.

A instrução prática que sai disso é simples e vale sempre. Compare pela referência, não pelo nome da coleção, e pergunte a condição por escrito antes de qualquer sinal. Já tínhamos medido dispersões grandes para o mesmo código em mesma referência, preço diferente, e esta é uma das maiores que apareceram até agora.

Um detalhe adicional na mesma linha. A referência de bracelete azul aparece quatro vezes entre as peças prontas, a R$ 3.690 em dois anúncios e a R$ 3.990 em outros dois. São 8% de diferença pelo mesmo relógio, o que é pouco perto do caso anterior, mas ainda é dinheiro que muda de lado só por causa de onde você clicou.

Quarenta e seis milímetros

Um último ponto sobre proporção, porque a linha esconde uma peça bastante fora do comum.

Entre as nove prontas, cinco medem 41 mm, três medem 43 mm e uma mede 46 mm.

Quarenta e seis milímetros é muito relógio. Quando medimos o tamanho declarado de tudo o que a gente acompanha, em qual o tamanho de relógio mais comum, a medida central ficou em 40,5 mm, com metade do mercado entre 39 e 42 mm. Peças de 46 mm respondem por 1,76% de tudo o que vemos pronto.

Para dar dimensão prática ao número: cinco milímetros a mais que a média é o suficiente para a caixa avançar sobre o osso do pulso em quem tem braço médio, e para o relógio não passar sob o punho de uma camisa social.

Isso não é defeito. É uma peça feita para pulso largo, e a oferta desse tamanho é genuinamente pequena, então quem precisa dela tem pouca escolha no mercado. Só não dá para comprar de olhos fechados pela foto do anúncio, porque a mesma linha tem caixa de 41 mm.

Entre as nove peças prontas, uma tem caixa de quarenta e seis milímetros.
Entre as nove peças prontas, uma tem caixa de quarenta e seis milímetros.

Onde ela decepciona

O cristal mineral domina. Seis das nove peças prontas usam o vidro que risca, e numa linha cuja mediana é R$ 3.990 isso fica abaixo do que a faixa entrega em média.

A disponibilidade é ruim. Vinte e sete por cento significa que a maior parte do que aparece na busca ainda não existe na prateleira, e encomenda vem com prazo que precisa ser combinado por escrito.

A ficha para no vidro. Espessura, calibre e resistência à água não aparecem de forma comparável nos anúncios, que é o padrão medido em o que o anúncio não diz.

E a cor concentra bastante. Cinco das nove peças prontas têm mostrador azul, então quem procura preto ou prata encontra uma peça de cada.

Qual comprar

Se o vidro é a prioridade, e ele deveria ser em relógio de uso diário, a peça de R$ 2.200 com safira é a melhor conta da linha inteira. É o menor preço e o melhor material ao mesmo tempo, o que quase nunca acontece.

Se você quer mecânica, as três peças automáticas resolvem, e duas delas trazem safira. A diferença de preço entre elas é enorme, então a comparação por referência é obrigatória antes de fechar.

Se o bracelete de aço é inegociável, as quatro peças azuis entre R$ 3.690 e R$ 3.990 são o caminho, com a ressalva de que ali o vidro é cristal mineral. E como o mesmo relógio aparece pelos dois preços, vale procurar o mais baixo.

E se o pulso é largo, a peça de 46 mm existe e é rara no mercado, mas vale provar antes, porque cinco milímetros acima da média mudam bastante a peça no braço.

Perguntas frequentes

O Bulova Wilton vale a pena?

Vale na peça certa. A de R$ 2.200 entrega safira e é a mais barata das nove prontas na nossa base, o que é uma combinação difícil de achar. As peças intermediárias, perto de quatro mil reais, trazem cristal mineral.

Quanto custa um Bulova Wilton?

De R$ 2.200 a R$ 10.529 entre as peças prontas que a gente acompanha, com mediana em R$ 3.990. A amplitude é de quase cinco vezes dentro do mesmo nome.

O Bulova Wilton tem safira?

Três das nove peças prontas têm. As outras seis usam cristal mineral, e o preço não ajuda a adivinhar qual é qual.

O Bulova Wilton é automático?

Três das nove peças prontas são automáticas. As outras seis são de quartzo, que funciona a pilha e mede a hora com precisão melhor.

Qual o tamanho do Bulova Wilton?

Quarenta e um milímetros em cinco das nove peças prontas, 43 mm em três e 46 mm em uma. O nome sozinho não diz qual é.

Por que o mesmo Bulova aparece por R$ 4.250 e por R$ 10.529?

Porque um dos anúncios descreve a peça como usada e o outro a vende como nova. A referência é a mesma nos dois, então a diferença é de condição, e ela precisa ser confirmada por escrito antes da compra.

O que fica

A Wilton é uma linha clássica bem resolvida de desenho, com 9 peças prontas na nossa base e piso em R$ 2.200. O problema dela não é o relógio, é o mapa.

Dentro do mesmo nome, o preço não prevê a ficha. A peça mais barata das nove é a única de quartzo com safira, e quatro peças que custam até R$ 3.290 a mais trazem cristal mineral.

A dispersão por referência é ainda maior. O mesmo código aparece por R$ 4.250 e por R$ 10.529, com a diferença explicada pela condição, e outro código aparece por R$ 3.690 e por R$ 3.990 sem diferença nenhuma além da loja.

E o tamanho varia de 41 a 46 mm, sendo que 46 mm responde por menos de 2% de tudo o que a gente acompanha.

Então a compra aqui se resolve com três perguntas feitas antes do preço: qual é a referência, qual é o vidro e qual é o diâmetro. Nenhuma das três está garantida pelo nome da coleção, e nenhuma delas está garantida pelo valor.

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