Bulova Wilton: a peça mais barata é a única com safira, e a mesma referência custa o dobro
A gente costuma supor que dentro de uma mesma coleção o preço acompanha a ficha. Nesta linha da Bulova isso simplesmente não acontece, e a peça mais barata das nove leva o vidro que as intermediárias não têm.
Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, a que abastece o radar. É o que a gente enxerga hoje, e não um retrato do país inteiro.
O que a Wilton é
A ficha da Bulova descreve uma casa americana de 1875 que construiu a identidade técnica moderna dela sobre eletrônica, com o Accutron de diapasão e depois o Precisionist de quartzo de alta frequência.
A Wilton é a linha clássica da casa. Caixa redonda, mostrador limpo, muita correia de couro e um ar deliberadamente tradicional. É relógio de vestir.
Na nossa base ela aparece com 9 peças prontas para sair, de 33 anunciadas, com preço entre R$ 2.200 e R$ 10.529 e mediana em R$ 3.990.
Vinte e sete por cento de disponibilidade é baixo, e a razão é a mesma que medimos em relógio indisponível ou sob encomenda: quase três em cada quatro anúncios da linha não têm produto hoje.
A amplitude de preço é o que chama atenção primeiro. Quase cinco vezes separam a peça mais barata da mais cara, dentro do mesmo nome. E é aí que o texto começa.
| Wilton na nossa base | |
|---|---|
| Peças prontas | 9 de 33 |
| Preço | R$ 2.200 a R$ 10.529 |
| Mediana | R$ 3.990 |
| Vidro | mineral em 6, safira em 3 |
| Movimento | quartzo em 6, automático em 3 |
| Caixa | 41 mm em 5, 43 mm em 3, 46 mm em 1 |
A mais barata é a que tem o melhor vidro
Aqui está o achado, e ele fica evidente quando as nove peças aparecem em ordem de preço.
| Peça pronta | Vidro | Movimento |
|---|---|---|
| R$ 2.200 | Safira | Quartzo |
| R$ 2.249 | Mineral | Automático |
| R$ 3.690 | Mineral | Quartzo |
| R$ 3.690 | Mineral | Quartzo |
| R$ 3.990 | Mineral | Quartzo |
| R$ 3.990 | Mineral | Quartzo |
| R$ 4.250 | Safira | Automático |
| R$ 5.290 | Mineral | Quartzo |
| R$ 10.529 | Safira | Automático |
Leia a coluna do meio de cima para baixo e o padrão some. A peça de R$ 2.200 traz safira. As quatro peças entre R$ 3.690 e R$ 3.990 trazem cristal mineral. A de R$ 5.290, que é a terceira mais cara da lista, também traz cristal mineral.
Ou seja, dentro desta coleção você pode pagar R$ 3.290 a mais e levar o vidro pior.
Vale explicar o que está em jogo nessa linha da ficha, porque ela é abstrata no anúncio e bem concreta no pulso. Safira é óxido de alumínio cristalizado e marca 9 na escala de dureza de Mohs, então quase nada do cotidiano risca ela. Cristal mineral é vidro comum endurecido por tratamento, e ele marca com areia, com a quina de uma mesa e com a chave do carro, conforme o verbete da Monochrome. Risco em vidro não sai. Ou troca o cristal, ou fica.
Existe uma explicação para a bagunça, e ela não é má-fé. O preço de cada peça responde ao acabamento da caixa, ao tipo de pulseira e ao custo do movimento, e não a uma tabela de qualidade de vidro. As quatro peças de R$ 3.690 a R$ 3.990 têm bracelete de aço, que encarece bastante em relação a uma correia de couro, e é por aí que o dinheiro sobe.
Mas essa explicação não muda o que interessa a quem compra. O preço, dentro desta linha, não é um indicador confiável de ficha técnica. Ele precisa ser conferido campo a campo.

A mesma referência pelo dobro
Agora o caso mais extremo da lista, e ele merece a explicação inteira.
A referência 97B210, que é o Wilton automático dourado com segundo fuso e correia de couro, aparece duas vezes entre as peças prontas da nossa varredura.
| A mesma referência, dois anúncios | |
|---|---|
| Anunciada como usada | R$ 4.250 |
| Anunciada como nova | R$ 10.529 |
| Diferença | R$ 6.279 |
O código de referência é idêntico nos dois, e referência é justamente o campo que a marca usa para distinguir versão e acabamento. Mesmo relógio, portanto.
A diferença está na condição. Um dos anúncios descreve a peça como usada, e o outro a vende como nova. Isso explica a distância, mas o tamanho dela ainda surpreende, porque o anúncio de peça usada pede 40% do preço da nova.
Vale abrir esse ponto, porque ele é útil para além desta linha. Relógio usado costuma ser negociado bem acima de 40% do valor de novo, principalmente em peça recente de marca conhecida. Quando a distância é grande assim, ela tende a significar uma de três coisas: a peça usada está muito bem precificada, o anúncio de peça nova está acima do mercado, ou existe alguma diferença de estado que a ficha não mostra.
A instrução prática que sai disso é simples e vale sempre. Compare pela referência, não pelo nome da coleção, e pergunte a condição por escrito antes de qualquer sinal. Já tínhamos medido dispersões grandes para o mesmo código em mesma referência, preço diferente, e esta é uma das maiores que apareceram até agora.
Um detalhe adicional na mesma linha. A referência de bracelete azul aparece quatro vezes entre as peças prontas, a R$ 3.690 em dois anúncios e a R$ 3.990 em outros dois. São 8% de diferença pelo mesmo relógio, o que é pouco perto do caso anterior, mas ainda é dinheiro que muda de lado só por causa de onde você clicou.
Quarenta e seis milímetros
Um último ponto sobre proporção, porque a linha esconde uma peça bastante fora do comum.
Entre as nove prontas, cinco medem 41 mm, três medem 43 mm e uma mede 46 mm.
Quarenta e seis milímetros é muito relógio. Quando medimos o tamanho declarado de tudo o que a gente acompanha, em qual o tamanho de relógio mais comum, a medida central ficou em 40,5 mm, com metade do mercado entre 39 e 42 mm. Peças de 46 mm respondem por 1,76% de tudo o que vemos pronto.
Para dar dimensão prática ao número: cinco milímetros a mais que a média é o suficiente para a caixa avançar sobre o osso do pulso em quem tem braço médio, e para o relógio não passar sob o punho de uma camisa social.
Isso não é defeito. É uma peça feita para pulso largo, e a oferta desse tamanho é genuinamente pequena, então quem precisa dela tem pouca escolha no mercado. Só não dá para comprar de olhos fechados pela foto do anúncio, porque a mesma linha tem caixa de 41 mm.

Onde ela decepciona
O cristal mineral domina. Seis das nove peças prontas usam o vidro que risca, e numa linha cuja mediana é R$ 3.990 isso fica abaixo do que a faixa entrega em média.
A disponibilidade é ruim. Vinte e sete por cento significa que a maior parte do que aparece na busca ainda não existe na prateleira, e encomenda vem com prazo que precisa ser combinado por escrito.
A ficha para no vidro. Espessura, calibre e resistência à água não aparecem de forma comparável nos anúncios, que é o padrão medido em o que o anúncio não diz.
E a cor concentra bastante. Cinco das nove peças prontas têm mostrador azul, então quem procura preto ou prata encontra uma peça de cada.
Qual comprar
Se o vidro é a prioridade, e ele deveria ser em relógio de uso diário, a peça de R$ 2.200 com safira é a melhor conta da linha inteira. É o menor preço e o melhor material ao mesmo tempo, o que quase nunca acontece.
Se você quer mecânica, as três peças automáticas resolvem, e duas delas trazem safira. A diferença de preço entre elas é enorme, então a comparação por referência é obrigatória antes de fechar.
Se o bracelete de aço é inegociável, as quatro peças azuis entre R$ 3.690 e R$ 3.990 são o caminho, com a ressalva de que ali o vidro é cristal mineral. E como o mesmo relógio aparece pelos dois preços, vale procurar o mais baixo.
E se o pulso é largo, a peça de 46 mm existe e é rara no mercado, mas vale provar antes, porque cinco milímetros acima da média mudam bastante a peça no braço.
Perguntas frequentes
O Bulova Wilton vale a pena?
Vale na peça certa. A de R$ 2.200 entrega safira e é a mais barata das nove prontas na nossa base, o que é uma combinação difícil de achar. As peças intermediárias, perto de quatro mil reais, trazem cristal mineral.
Quanto custa um Bulova Wilton?
De R$ 2.200 a R$ 10.529 entre as peças prontas que a gente acompanha, com mediana em R$ 3.990. A amplitude é de quase cinco vezes dentro do mesmo nome.
O Bulova Wilton tem safira?
Três das nove peças prontas têm. As outras seis usam cristal mineral, e o preço não ajuda a adivinhar qual é qual.
O Bulova Wilton é automático?
Três das nove peças prontas são automáticas. As outras seis são de quartzo, que funciona a pilha e mede a hora com precisão melhor.
Qual o tamanho do Bulova Wilton?
Quarenta e um milímetros em cinco das nove peças prontas, 43 mm em três e 46 mm em uma. O nome sozinho não diz qual é.
Por que o mesmo Bulova aparece por R$ 4.250 e por R$ 10.529?
Porque um dos anúncios descreve a peça como usada e o outro a vende como nova. A referência é a mesma nos dois, então a diferença é de condição, e ela precisa ser confirmada por escrito antes da compra.
O que fica
A Wilton é uma linha clássica bem resolvida de desenho, com 9 peças prontas na nossa base e piso em R$ 2.200. O problema dela não é o relógio, é o mapa.
Dentro do mesmo nome, o preço não prevê a ficha. A peça mais barata das nove é a única de quartzo com safira, e quatro peças que custam até R$ 3.290 a mais trazem cristal mineral.
A dispersão por referência é ainda maior. O mesmo código aparece por R$ 4.250 e por R$ 10.529, com a diferença explicada pela condição, e outro código aparece por R$ 3.690 e por R$ 3.990 sem diferença nenhuma além da loja.
E o tamanho varia de 41 a 46 mm, sendo que 46 mm responde por menos de 2% de tudo o que a gente acompanha.
Então a compra aqui se resolve com três perguntas feitas antes do preço: qual é a referência, qual é o vidro e qual é o diâmetro. Nenhuma das três está garantida pelo nome da coleção, e nenhuma delas está garantida pelo valor.
