Dois terços dos relógios prontos existem em uma loja só, e não dá para comparar preço
O conselho mais repetido sobre compra é pesquisar preço em várias lojas. A gente foi medir quantas vezes isso é sequer possível, e a resposta muda o jeito de procurar.
Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, a que abastece o radar. É o que a gente enxerga hoje, e não um censo do mercado.
O que a conta mediu
A pergunta é simples: em quantas lojas diferentes a mesma referência aparece pronta para sair?
Referência é o código de letras e números que a marca usa para identificar a versão exata de um relógio, com aquele acabamento de caixa, aquele mostrador e aquela pulseira. É o único campo que permite dizer com segurança que duas lojas estão vendendo o mesmo objeto, porque o nome comercial muda de vitrine para vitrine.
Contamos só peça pronta para sair, porque comparar preço de encomenda com preço de estoque mistura duas coisas diferentes, conta que fizemos em esperar encomenda sai mais barato.
Deu 5.197 referências distintas prontas na nossa base.
A distribuição
E aqui está o resultado, que é bem mais concentrado do que a intuição sugere.
| A mesma referência aparece em | Referências | Fatia |
|---|---|---|
| 1 loja | 3.354 | 64,5% |
| 2 lojas | 885 | 17,0% |
| 3 lojas | 398 | 7,7% |
| 4 lojas | 228 | 4,4% |
| 5 lojas | 156 | 3,0% |
| 6 lojas ou mais | 176 | 3,4% |
Leia a primeira linha devagar. Quase dois terços das referências prontas existem em uma loja só.
Isso quer dizer que, na maior parte das vezes em que você encontra o relógio exato que quer, não existe segundo anunciante. Não há pesquisa de preço a fazer, porque não há com quem comparar. O preço daquela loja é o preço.
Só 35% das referências aparecem em duas lojas ou mais, e apenas 3,4% aparecem em seis ou mais, que é o número mínimo para uma comparação realmente confortável.
A concentração aparece também por marca. Entre as referências com um dono só, a Orient responde por 1.411, a Casio por 431, e Citizen e Seiko por 266 cada. São justamente as marcas de catálogo enorme, com centenas de variações de mostrador e pulseira.

Por que a maioria tem um dono só
Existem duas razões, e elas se somam.
Antes das razões, vale lembrar por que o código existe. Ele identifica a versão exata da peça, incluindo o material do vidro, e a diferença entre safira e cristal mineral é a que mais aparece no uso diário: a primeira marca 9 na escala de dureza de Mohs e praticamente não risca, e a segunda marca com areia e com quina de mesa, conforme o verbete da Monochrome.
A primeira é de catálogo. Marcas japonesas de volume produzem dezenas de variações de cada modelo, mudando cor de mostrador, tipo de pulseira e acabamento de caixa. Cada variação ganha o seu próprio código de referência.
Uma loja não traz todas. Ela escolhe cinco ou seis cores de uma linha que tem quarenta, conforme o gosto do comprador dela. A loja da esquina escolhe outras cinco. O resultado é um mercado onde a linha está em todo lugar e a referência específica está num lugar só.
E vale notar que boa parte dessas variações é de peça mecânica, que o verbete de relógio mecânico descreve como feita em lote pequeno, o que multiplica os códigos de referência sem multiplicar o volume de cada um.
A segunda é de importação. Boa parte do que chega vem por canais próprios de cada lojista, em lotes pequenos, e não por um distribuidor único que abastece todo mundo com o mesmo mix. Cada loja monta a própria vitrine.
Junte as duas e o efeito é este: você compara linhas com facilidade e referências com dificuldade.
E quando dá para comparar
Para o terço em que existe mais de um anunciante, a notícia é ambígua.
A diferença mediana de preço entre lojas para a mesma referência é de 0,1%. Praticamente zero. O varejo tradicional segue o preço sugerido e quase não se desvia dele, achado que já tínhamos publicado em mesma referência, preço diferente.
Ou seja, mesmo quando a comparação é possível, ela costuma não render nada.
O dinheiro está na cauda. No quarto mais disperso das referências comparáveis, a diferença passa de 10%, e existem casos bem maiores. Já encontramos a mesma referência variando 89% entre cinco lojas, todas com peça pronta, em Citizen Zenshin vale a pena.
Então o resumo honesto é este. Comparar preço entre lojas não é possível em 65% dos casos, não rende nada em boa parte do resto, e rende muito em uma minoria. Vale fazer, mas com expectativa calibrada e sem gastar a tarde nisso.
Como procurar sabendo disso
Quatro consequências práticas.
Primeira, procure pela linha antes de procurar pela referência. Se você fixa a cor exata e o tipo de pulseira antes de olhar preço, provavelmente vai cair numa referência de dono único e perder qualquer margem de negociação. Comece pela coleção, veja o que existe pronto, e só depois feche a configuração.
Segunda, quando encontrar a referência exata em mais de uma loja, compare. São 35% dos casos, e é exatamente nesses que a cauda de 10% ou mais aparece.
Terceira, flexibilidade de cor vale desconto. Como cada loja traz o próprio mix, aceitar o mostrador azul em vez do verde muitas vezes abre três anunciantes onde havia um.
Quarta, não confunda ausência de comparação com preço alto. Ter um dono só não significa que o preço está inflado. Significa apenas que você não tem referência externa, e aí os parâmetros que sobram são a faixa da coleção e o piso da ficha que você quer, que levantamos em o piso de cada ficha.

Onde a leitura falha
Três ressalvas honestas.
A primeira é o recorte. São vinte lojas, não o mercado inteiro. Uma referência com dono único aqui pode ter outro anunciante fora da nossa varredura.
A segunda é o campo. A contagem depende de as lojas publicarem a referência corretamente, e algumas escrevem o código com variações de pontuação ou com sufixo próprio. Isso infla um pouco a contagem de referências únicas.
A terceira é o tempo. O retrato se move toda semana, e uma referência que hoje tem um anunciante pode ter três no mês que vem, quando a próxima remessa chegar.
Perguntas frequentes
Vale a pena comparar preço de relógio entre lojas?
Vale, mas em 64,5% dos casos não é possível: a referência exata existe em uma loja só. Quando existe em mais de uma, a diferença mediana é de apenas 0,1%.
Por que o mesmo relógio não aparece em várias lojas?
Porque cada loja traz um mix próprio de cores e acabamentos de uma mesma linha, e cada variação tem código de referência distinto. A linha está em todo lugar, a referência específica não.
Em quantas lojas aparece a mesma referência?
Na nossa base, 64,5% aparecem em uma só, 17% em duas, 7,7% em três, e apenas 3,4% em seis ou mais.
Como achar o mesmo relógio mais barato?
Compare pelo código de referência, não pelo nome da coleção. E aceite variação de cor ou pulseira, porque isso costuma abrir mais anunciantes para a mesma linha.
Loja única significa preço inflado?
Não. Significa apenas que não há referência externa para comparar. Use a faixa da coleção e o piso da ficha desejada como parâmetro.
Qual marca tem mais referência de loja única?
A Orient, com 1.411 referências prontas anunciadas por um único lojista na nossa base, seguida de Casio com 431, e Citizen e Seiko com 266 cada.
O que fica
O conselho de pesquisar preço em várias lojas pressupõe que exista mais de uma vendendo a mesma coisa. Nas 5.197 referências prontas da nossa base, isso é falso em 64,5% dos casos.
O motivo não é escassez, é variedade. Marcas de volume produzem dezenas de variações por linha, cada loja traz o próprio punhado, e o resultado é um mercado onde a coleção está em toda parte e a referência exata está num lugar só.
Quando a comparação existe, ela rende pouco. A diferença mediana entre lojas para a mesma referência é de 0,1%, porque o varejo tradicional segue o preço sugerido.
O dinheiro está na minoria. No quarto mais disperso das referências comparáveis, a diferença passa de 10%, e casos acima de 80% existem. Então compare, sim, mas comece pela linha em vez da referência: é o que mais aumenta a chance de ter com quem comparar.
