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O piso de cada ficha: quanto custa o mais barato que cumpre o que você quer

Gustavo Grossi 7 min de leitura
Relógio suíço clássico de mostrador prateado apoiado em mesa clara

Quase toda pergunta de quem vai comprar o primeiro relógio bom é a mesma: quanto preciso gastar para conseguir tal coisa. Dá para responder isso com número, e não com opinião.

Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, a que abastece o radar. É o que a gente enxerga hoje, e não um censo do mercado.

Como a conta foi feita

A ideia é simples. Em vez de perguntar quanto custa um relógio bom, que é uma pergunta sem resposta, a gente inverteu: para cada combinação de ficha, qual é a peça pronta mais barata que a cumpre?

Duas regras deixam a conta honesta.

Primeira, só entram peças prontas para sair. Anúncio sob encomenda tem preço de captação e prazo incerto, e mistura as duas coisas estraga a comparação, conta que está em esperar encomenda sai mais barato.

Segunda, as características usadas são as que aparecem nos anúncios de forma comparável: vidro, movimento, diâmetro e origem da marca. Espessura, resistência à água e calibre ficam de fora porque quase nenhum anúncio publica, padrão que medimos em o que o anúncio não diz.

A tabela do piso

Aqui está o resultado, da exigência mais baixa para a mais alta.

O que você quer Peças prontas Piso
Qualquer relógio 9.379 R$ 146
Safira 4.486 R$ 450
Safira, entre 38 e 42 mm 2.695 R$ 598
Carga por luz e safira 707 R$ 598
Automático ver adiante R$ 860
Automático e safira 2.424 R$ 1.398
Automático, safira, 38 a 42 mm 1.771 R$ 1.398
Suíço e safira 1.199 R$ 2.000
Suíço, automático e safira 520 R$ 3.000

Vale traduzir a primeira linha que interessa de verdade. Vidro de safira começa em R$ 450.

Isso surpreende bastante gente, porque safira tem fama de item de luxo. Ela é óxido de alumínio cristalizado, marca 9 na escala de dureza de Mohs, e na prática quase nada do cotidiano risca o vidro, ao contrário do cristal mineral, que marca com areia e com a quina de uma mesa sem conserto depois, conforme o verbete da Monochrome.

Por quatrocentos e cinquenta reais você já leva o vidro que não risca. Essa é provavelmente a melhor notícia deste texto.

E repare numa coincidência que não é coincidência. O piso de safira entre 38 e 42 mm e o de carga por luz com safira são o mesmo número, R$ 598, e é a mesma peça: uma Orient movida a luz, com safira, no tamanho que metade do mercado usa. É difícil montar uma conta melhor que essa por menos de seiscentos reais.

O piso do suíço com safira fica em dois mil reais.
O piso do suíço com safira fica em dois mil reais.

O degrau que mais dói

Olhe a tabela de novo, agora só para as diferenças entre linhas vizinhas.

De safira para automático com safira, o piso sobe de R$ 450 para R$ 1.398. Triplica.

De automático com safira para suíço com automático e safira, sobe de R$ 1.398 para R$ 3.000. Mais que dobra de novo.

Somando os dois degraus, exigir que o relógio seja suíço em vez de apenas mecânico com bom vidro multiplica o piso por quase sete.

Vale explicar de onde vem cada degrau, porque eles têm naturezas diferentes.

O primeiro degrau, o da mecânica, é de custo de fabricação real. Um movimento automático tem dezenas de peças montadas e reguladas uma a uma, com um balanço que oscila várias vezes por segundo. Isso custa muito mais do que produzir um circuito de quartzo, conforme o comparativo da Monochrome. Você está pagando por complexidade que existe.

O segundo degrau, o da origem suíça, é de outra natureza. Ele mistura custo de mão de obra, custo de marca e estrutura de importação. Parte dele é manufatura, parte é posicionamento, e é honesto dizer que não dá para separar as duas com os dados de anúncio.

Isso não torna o relógio suíço um mau negócio. Torna a decisão mais clara: se o orçamento é curto e a prioridade é a peça, o degrau suíço é o primeiro a cortar.

O piso falso que o dado esconde

Aqui vale uma confissão de método, porque ela é útil para quem compara anúncios sozinho.

Quando rodamos a conta só com o campo automático, sem exigir safira, o piso veio em R$ 180. Seria um automático por menos de duzentos reais, o que não existe.

Fomos olhar. As peças mais baratas rotuladas como automáticas são relógios digitais da Casio, modelos de pulseira de resina que qualquer um reconhece. Eles são de quartzo, e o campo do anúncio está simplesmente errado, na mesma loja, em oito referências seguidas.

Por isso a linha do automático na tabela acima traz R$ 860, que é o piso depois de tirar essas peças mal classificadas. É um Orient, e ele é mecânico de verdade.

A lição vale para qualquer busca que você faça. O campo do anúncio erra, e erra mais justamente na ponta barata, que é onde o filtro de preço leva você primeiro. Já tínhamos visto o mesmo tipo de problema no campo de material, em Citizen Zenshin vale a pena, e no campo de movimento, em Citizen Rolan vale a pena.

Antes de comemorar um achado bom demais, abra o anúncio e olhe a foto. Um automático não tem display digital.

Como usar isso

A tabela serve para uma coisa específica: decidir o que cortar quando o orçamento não fecha.

Se você tem R$ 500, leve safira. É o item que mais protege o relógio ao longo dos anos e ele já cabe aí.

Se você tem R$ 600, leve safira com carga por luz e no tamanho médio. Não troca pilha, não risca e serve na maioria dos pulsos.

Se você tem R$ 1.400, o automático entra. A partir daí você está pagando pelo mecanismo, e não por precisão, porque quartzo mede melhor. A conta dessa troca está em primeiro relógio automático.

Se você tem R$ 2.000, dá para ter safira com nome suíço, mas em quartzo. E se o objetivo é suíço e mecânico, o piso real é R$ 3.000, com a comparação completa em Tissot Carson vale a pena.

O que a tabela diz, no fundo, é que a ordem certa de prioridade para quem tem pouco dinheiro é: vidro primeiro, tamanho depois, mecânica em terceiro e origem por último.

Safira começa em quatrocentos e cinquenta reais entre as peças prontas.
Safira começa em quatrocentos e cinquenta reais entre as peças prontas.

Onde a leitura falha

Três ressalvas honestas.

Piso não é recomendação. A peça mais barata que cumpre uma ficha é a mais barata, não a melhor. Acabamento, rede de assistência e revenda não aparecem em nenhum campo de anúncio e mudam bastante a experiência.

O retrato se move. A varredura acompanha vinte lojas e se atualiza, então os números descrevem o mercado desta semana. A ordem dos degraus muda pouco, os valores mudam mais.

E a base é nossa. São vinte lojas brasileiras, não o país inteiro. Existe peça mais barata em algum lugar que a gente não enxerga.

Perguntas frequentes

Qual o relógio mais barato com safira?

Na nossa base, R$ 450 entre as peças prontas para sair. É uma Orient, e o vidro de safira é o mesmo material das peças caras.

Quanto custa o automático mais barato?

R$ 860 entre as peças prontas, depois de excluir anúncios com o campo de movimento errado. Com safira junto, o piso sobe para R$ 1.398.

Quanto custa um relógio suíço com safira?

O piso é R$ 2.000 entre as peças prontas que acompanhamos. Se você quiser suíço, automático e safira ao mesmo tempo, o piso vai para R$ 3.000.

Vale mais a pena safira ou automático?

Se o orçamento é curto, safira. Ela custa menos, protege o relógio no uso diário e vale para qualquer tipo de movimento. O automático é preferência por mecanismo, não ganho de precisão.

Por que aparecem automáticos por menos de R$ 300?

Porque o campo do anúncio erra. As peças mais baratas rotuladas como automáticas na nossa base são relógios digitais de quartzo com a classificação trocada.

Qual a ordem de prioridade para quem tem pouco?

Vidro primeiro, tamanho depois, mecânica em terceiro e origem da marca por último. É a ordem que mais entrega por real gasto.

O que fica

Dá para responder com número a pergunta de quanto custa cada coisa. Safira começa em R$ 450, e essa é a melhor notícia da tabela, porque é o item que mais protege o relógio no uso diário.

Automático com safira começa em R$ 1.398, o que triplica o piso. E exigir que ele seja suíço e mecânico leva a R$ 3.000, quase sete vezes o ponto de partida.

Os dois degraus têm naturezas diferentes. O da mecânica é custo de fabricação que existe de verdade. O da origem suíça mistura manufatura, marca e importação, e com dados de anúncio não dá para separar.

E fica um aviso de método que vale para qualquer busca. O piso do automático parecia ser R$ 180, e era erro de classificação em relógio digital. Antes de comemorar um achado bom demais, abra o anúncio e olhe a foto.

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