O piso de cada ficha: quanto custa o mais barato que cumpre o que você quer
Quase toda pergunta de quem vai comprar o primeiro relógio bom é a mesma: quanto preciso gastar para conseguir tal coisa. Dá para responder isso com número, e não com opinião.
Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, a que abastece o radar. É o que a gente enxerga hoje, e não um censo do mercado.
Como a conta foi feita
A ideia é simples. Em vez de perguntar quanto custa um relógio bom, que é uma pergunta sem resposta, a gente inverteu: para cada combinação de ficha, qual é a peça pronta mais barata que a cumpre?
Duas regras deixam a conta honesta.
Primeira, só entram peças prontas para sair. Anúncio sob encomenda tem preço de captação e prazo incerto, e mistura as duas coisas estraga a comparação, conta que está em esperar encomenda sai mais barato.
Segunda, as características usadas são as que aparecem nos anúncios de forma comparável: vidro, movimento, diâmetro e origem da marca. Espessura, resistência à água e calibre ficam de fora porque quase nenhum anúncio publica, padrão que medimos em o que o anúncio não diz.
A tabela do piso
Aqui está o resultado, da exigência mais baixa para a mais alta.
| O que você quer | Peças prontas | Piso |
|---|---|---|
| Qualquer relógio | 9.379 | R$ 146 |
| Safira | 4.486 | R$ 450 |
| Safira, entre 38 e 42 mm | 2.695 | R$ 598 |
| Carga por luz e safira | 707 | R$ 598 |
| Automático | ver adiante | R$ 860 |
| Automático e safira | 2.424 | R$ 1.398 |
| Automático, safira, 38 a 42 mm | 1.771 | R$ 1.398 |
| Suíço e safira | 1.199 | R$ 2.000 |
| Suíço, automático e safira | 520 | R$ 3.000 |
Vale traduzir a primeira linha que interessa de verdade. Vidro de safira começa em R$ 450.
Isso surpreende bastante gente, porque safira tem fama de item de luxo. Ela é óxido de alumínio cristalizado, marca 9 na escala de dureza de Mohs, e na prática quase nada do cotidiano risca o vidro, ao contrário do cristal mineral, que marca com areia e com a quina de uma mesa sem conserto depois, conforme o verbete da Monochrome.
Por quatrocentos e cinquenta reais você já leva o vidro que não risca. Essa é provavelmente a melhor notícia deste texto.
E repare numa coincidência que não é coincidência. O piso de safira entre 38 e 42 mm e o de carga por luz com safira são o mesmo número, R$ 598, e é a mesma peça: uma Orient movida a luz, com safira, no tamanho que metade do mercado usa. É difícil montar uma conta melhor que essa por menos de seiscentos reais.

O degrau que mais dói
Olhe a tabela de novo, agora só para as diferenças entre linhas vizinhas.
De safira para automático com safira, o piso sobe de R$ 450 para R$ 1.398. Triplica.
De automático com safira para suíço com automático e safira, sobe de R$ 1.398 para R$ 3.000. Mais que dobra de novo.
Somando os dois degraus, exigir que o relógio seja suíço em vez de apenas mecânico com bom vidro multiplica o piso por quase sete.
Vale explicar de onde vem cada degrau, porque eles têm naturezas diferentes.
O primeiro degrau, o da mecânica, é de custo de fabricação real. Um movimento automático tem dezenas de peças montadas e reguladas uma a uma, com um balanço que oscila várias vezes por segundo. Isso custa muito mais do que produzir um circuito de quartzo, conforme o comparativo da Monochrome. Você está pagando por complexidade que existe.
O segundo degrau, o da origem suíça, é de outra natureza. Ele mistura custo de mão de obra, custo de marca e estrutura de importação. Parte dele é manufatura, parte é posicionamento, e é honesto dizer que não dá para separar as duas com os dados de anúncio.
Isso não torna o relógio suíço um mau negócio. Torna a decisão mais clara: se o orçamento é curto e a prioridade é a peça, o degrau suíço é o primeiro a cortar.
O piso falso que o dado esconde
Aqui vale uma confissão de método, porque ela é útil para quem compara anúncios sozinho.
Quando rodamos a conta só com o campo automático, sem exigir safira, o piso veio em R$ 180. Seria um automático por menos de duzentos reais, o que não existe.
Fomos olhar. As peças mais baratas rotuladas como automáticas são relógios digitais da Casio, modelos de pulseira de resina que qualquer um reconhece. Eles são de quartzo, e o campo do anúncio está simplesmente errado, na mesma loja, em oito referências seguidas.
Por isso a linha do automático na tabela acima traz R$ 860, que é o piso depois de tirar essas peças mal classificadas. É um Orient, e ele é mecânico de verdade.
A lição vale para qualquer busca que você faça. O campo do anúncio erra, e erra mais justamente na ponta barata, que é onde o filtro de preço leva você primeiro. Já tínhamos visto o mesmo tipo de problema no campo de material, em Citizen Zenshin vale a pena, e no campo de movimento, em Citizen Rolan vale a pena.
Antes de comemorar um achado bom demais, abra o anúncio e olhe a foto. Um automático não tem display digital.
Como usar isso
A tabela serve para uma coisa específica: decidir o que cortar quando o orçamento não fecha.
Se você tem R$ 500, leve safira. É o item que mais protege o relógio ao longo dos anos e ele já cabe aí.
Se você tem R$ 600, leve safira com carga por luz e no tamanho médio. Não troca pilha, não risca e serve na maioria dos pulsos.
Se você tem R$ 1.400, o automático entra. A partir daí você está pagando pelo mecanismo, e não por precisão, porque quartzo mede melhor. A conta dessa troca está em primeiro relógio automático.
Se você tem R$ 2.000, dá para ter safira com nome suíço, mas em quartzo. E se o objetivo é suíço e mecânico, o piso real é R$ 3.000, com a comparação completa em Tissot Carson vale a pena.
O que a tabela diz, no fundo, é que a ordem certa de prioridade para quem tem pouco dinheiro é: vidro primeiro, tamanho depois, mecânica em terceiro e origem por último.

Onde a leitura falha
Três ressalvas honestas.
Piso não é recomendação. A peça mais barata que cumpre uma ficha é a mais barata, não a melhor. Acabamento, rede de assistência e revenda não aparecem em nenhum campo de anúncio e mudam bastante a experiência.
O retrato se move. A varredura acompanha vinte lojas e se atualiza, então os números descrevem o mercado desta semana. A ordem dos degraus muda pouco, os valores mudam mais.
E a base é nossa. São vinte lojas brasileiras, não o país inteiro. Existe peça mais barata em algum lugar que a gente não enxerga.
Perguntas frequentes
Qual o relógio mais barato com safira?
Na nossa base, R$ 450 entre as peças prontas para sair. É uma Orient, e o vidro de safira é o mesmo material das peças caras.
Quanto custa o automático mais barato?
R$ 860 entre as peças prontas, depois de excluir anúncios com o campo de movimento errado. Com safira junto, o piso sobe para R$ 1.398.
Quanto custa um relógio suíço com safira?
O piso é R$ 2.000 entre as peças prontas que acompanhamos. Se você quiser suíço, automático e safira ao mesmo tempo, o piso vai para R$ 3.000.
Vale mais a pena safira ou automático?
Se o orçamento é curto, safira. Ela custa menos, protege o relógio no uso diário e vale para qualquer tipo de movimento. O automático é preferência por mecanismo, não ganho de precisão.
Por que aparecem automáticos por menos de R$ 300?
Porque o campo do anúncio erra. As peças mais baratas rotuladas como automáticas na nossa base são relógios digitais de quartzo com a classificação trocada.
Qual a ordem de prioridade para quem tem pouco?
Vidro primeiro, tamanho depois, mecânica em terceiro e origem da marca por último. É a ordem que mais entrega por real gasto.
O que fica
Dá para responder com número a pergunta de quanto custa cada coisa. Safira começa em R$ 450, e essa é a melhor notícia da tabela, porque é o item que mais protege o relógio no uso diário.
Automático com safira começa em R$ 1.398, o que triplica o piso. E exigir que ele seja suíço e mecânico leva a R$ 3.000, quase sete vezes o ponto de partida.
Os dois degraus têm naturezas diferentes. O da mecânica é custo de fabricação que existe de verdade. O da origem suíça mistura manufatura, marca e importação, e com dados de anúncio não dá para separar.
E fica um aviso de método que vale para qualquer busca. O piso do automático parecia ser R$ 180, e era erro de classificação em relógio digital. Antes de comemorar um achado bom demais, abra o anúncio e olhe a foto.
