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Relógio maior custa mais? Só em 57% das coleções, e a diferença típica é de 8%

Gustavo Grossi 7 min de leitura
Relógio de mergulho de mostrador azul e bracelete de aço sobre superfície clara

Existe uma suposição silenciosa em quase toda compra: mais relógio custa mais dinheiro. Dentro da mesma coleção, isso é verdade pouco mais da metade das vezes.

Os números vêm da nossa varredura de vinte lojas brasileiras, a que abastece o radar. É o que a gente enxerga hoje, e não um censo do mercado.

Como isolar o tamanho

A pergunta parece simples e é difícil de medir direito, por um motivo que vale explicar antes do resultado.

Se você comparar o preço médio dos relógios grandes contra o dos pequenos no mercado inteiro, a resposta vem contaminada. Relógio grande é mais comum em categoria esportiva e de instrumento, que já custa mais por outros motivos. O número que sai mede categoria, não tamanho.

É o mesmo problema que aparece quando se compara preço entre marcas sem travar nada, conta que está em quanto custa um 40 mm em cada marca.

A correção é comparar dentro da mesma coleção, onde a marca, o posicionamento, a categoria e o desenho já são os mesmos.

Então o recorte foi este. Pegamos coleções com pelo menos três peças prontas até 39 mm e três de 41 mm para cima, e comparamos as medianas dos dois grupos. Sobraram 42 coleções com material suficiente dos dois lados.

O resultado

A versão maior contra a menor, 42 coleções
A maior sai mais cara 24 coleções, ou 57%
A maior sai igual ou mais barata 18 coleções, ou 43%
Diferença mediana 8%

Duas leituras saem daí, e as duas contrariam a intuição.

A primeira é a frequência. Em quase metade das coleções, comprar a versão maior não custa mais nada. A marca simplesmente posiciona os dois tamanhos no mesmo preço, porque eles disputam públicos diferentes e não concorrem entre si.

A segunda é o tamanho do efeito. Quando existe diferença, ela é de 8% na mediana. Numa peça de quatro mil reais, isso é trezentos e vinte reais, que é menos do que a variação entre duas lojas em boa parte do catálogo.

Ou seja, o diâmetro é uma das variáveis mais baratas da ficha. Vidro e movimento pesam muito mais. Safira contra cristal mineral, por exemplo, separa peças por faixas inteiras de preço, conta que está em o piso de cada ficha.

Em quase metade das coleções, a versão maior não custa nada a mais.
Em quase metade das coleções, a versão maior não custa nada a mais.

Onde a diferença é grande

A mediana descreve o comportamento típico. As pontas são outra história, e elas merecem ser lidas com desconfiança.

Coleção Até 39 mm De 41 mm para cima Diferença
Orient Sun & Moon R$ 1.998 R$ 4.398 +120%
Orient Unique R$ 708 R$ 1.278 +80%
Seiko King Seiko R$ 15.999 R$ 27.999 +75%
Tissot Seastar R$ 4.590 R$ 7.150 +56%
Timex Expedition R$ 2.698 R$ 3.918 +45%

Agora a ressalva, e ela é importante o suficiente para vir antes de qualquer conclusão.

Nessas coleções, a versão grande provavelmente não é a mesma peça num tamanho maior. Coleção é um nome comercial largo, e dentro dele a marca costuma colocar produtos diferentes: a versão pequena pode ser quartzo simples e a grande pode ser automática com complicação, ou com outro material de caixa.

Já vimos isso medido em outras linhas. Dentro de um mesmo nome convivem quartzo e automático, safira e mineral, e caixas que diferem em treze milímetros, como levantamos em Bulova Sutton vale a pena.

Então a leitura honesta das pontas é esta: elas mostram onde o nome da coleção cobre produtos diferentes, e não onde o milímetro custa caro. O número confiável desta pesquisa é a mediana de 8%, que sobrevive à mistura porque ela aparece em 42 coleções ao mesmo tempo.

Por que a suposição falha

Vale entender o mecanismo, porque ele explica a frequência de 57%.

Do lado da fábrica, o custo de fazer uma caixa dois ou três milímetros maior é quase irrelevante. O que custa num relógio é o movimento, que no caso mecânico tem dezenas de peças montadas e reguladas uma a uma, conforme o verbete de relógio mecânico, e esse conjunto é idêntico nas duas versões.

O que muda de uma para a outra é um pouco mais de aço na caixa e no bracelete. O vidro é o mesmo, a montagem é a mesma, e não existe salto de custo entre 38 e 41 mm.

Do lado do preço, o que decide é posicionamento. A marca olha para quem compra cada versão e coloca o preço que aquele público aceita. Quando os dois tamanhos atendem o mesmo público com bolsos parecidos, ela cobra o mesmo.

E existe um terceiro fator, que é o volume. A versão de tamanho médio costuma ser a mais vendida, e escala derruba custo. Não é raro a peça de 40 mm sair mais barata que a de 36 mm da mesma linha, simplesmente porque a marca produz dez vezes mais dela.

Isso também aparece do lado do comprador. Metade do mercado que a gente acompanha está entre 39 e 42 mm, conforme qual o tamanho de relógio mais comum, e o que é comum costuma ser mais barato de produzir e mais fácil de vender.

Como usar isso

Três consequências práticas.

Primeira, escolha o tamanho pelo pulso e não pelo orçamento. Se a diferença típica é de 8%, deixar de comprar o diâmetro certo para economizar é uma troca ruim. Um relógio que não assenta fica na gaveta, e aí o custo foi de 100%.

Segunda, quando a diferença for grande, investigue. Uma coleção em que a versão grande custa 50% ou 100% a mais quase certamente tem outra coisa dentro. Compare vidro, movimento e material de caixa antes de atribuir a diferença ao tamanho.

Terceira, não use o tamanho como argumento de negociação. Ele não é onde o dinheiro está. O vidro é: safira marca 9 na escala de dureza de Mohs e quase não risca, enquanto cristal mineral marca com areia e com quina de mesa, conforme o verbete da Monochrome. Trocar de tamanho economiza 8%, e trocar de vidro muda a peça inteira.

Nas coleções de maior diferença, a versão grande costuma ser outro produto.
Nas coleções de maior diferença, a versão grande costuma ser outro produto.

Onde a leitura falha

Três ressalvas honestas.

O corte por coleção controla marca e categoria, mas não controla o que a marca coloca dentro do nome. É a limitação principal, e é por isso que as pontas merecem desconfiança.

A amostra é de 42 coleções, que é o que existe com três peças de cada lado. Coleções que só vendem um tamanho ficam fora, e elas são a maioria.

E o corte de tamanho usa o diâmetro declarado. Cerca de uma em cada dez peças não publica esse número, e peça retangular declara largura em vez de diâmetro, o que mistura um pouco os grupos.

Perguntas frequentes

Relógio maior é mais caro?

Dentro da mesma coleção, só em 57% dos casos, e a diferença mediana é de 8%. Em 43% das coleções o tamanho maior custa igual ou menos.

Quanto custa a mais um relógio maior?

Cerca de 8% na mediana, quando existe diferença. Numa peça de quatro mil reais, são cerca de trezentos e vinte reais.

Por que algumas coleções cobram 100% a mais pela versão grande?

Porque a versão grande normalmente não é a mesma peça num tamanho maior. O nome da coleção costuma cobrir produtos com movimento, vidro ou material de caixa diferentes.

Vale a pena escolher um tamanho menor para economizar?

Não. A economia típica é de 8%, e um relógio que não assenta no pulso acaba sem uso. Escolha o diâmetro pelo pulso.

O que pesa mais no preço que o tamanho?

Vidro e movimento, com folga. A diferença entre safira e cristal mineral, ou entre automático e quartzo, separa peças por faixas inteiras de preço.

Como comparar preço entre tamanhos corretamente?

Dentro da mesma coleção e conferindo movimento, vidro e material de caixa nas duas versões. Se algum desses campos mudar, a diferença de preço não é de tamanho.

O que fica

A suposição de que mais relógio custa mais dinheiro sobrevive pouco ao teste. Dentro de 42 coleções com as duas versões prontas, a maior sai mais cara em 57% das vezes, e a diferença mediana é de 8%.

Em 43% das coleções ela não custa nada a mais, porque o custo de fabricar alguns milímetros de caixa é quase irrelevante e o preço responde a posicionamento, não a material.

As coleções em que a diferença passa de 50% quase sempre escondem outra coisa dentro do mesmo nome, e por isso o número para levar daqui é a mediana, não as pontas.

A consequência prática é boa para quem compra. Escolha o diâmetro pelo pulso, porque ele é barato, e gaste a atenção no vidro e no movimento, que é onde o dinheiro realmente está.

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